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Sociedade dos Talentos Mortos:

Capitalismo, Marketing Pessoal e a lista de coisas que eu fracassei.


Belém, 12 de fevereiro de 2026


Autora da Resenha: Maiara Malato - @_mai.drawing

Revisora Textual: Amanda Murta - @amandamurta_


Quer saber como que uma pessoa fica assombrada? Por que os espíritos vêm perturbar a gente? Como é a vida de quem trabalha e ganha a vida assustando, só que do ponto de vista dos fantasmas?


Fonte: site do IMDB
Fonte: site do IMDB

Sociedade dos Talentos Mortos é um filme Taiwanês que responde essas perguntas de uma maneira divertida e bem dirigida. A iluminação e a estética do filme já são um encantamento à parte, mas eu preciso falar do que me arrebatou nele.


Esse filme é repleto de várias referências a clássicos de filmes de terror e lendas urbanas asiáticas, trazendo todos os clichês como uma forma de “metalinguagem” de sustos, mostrando outros fantasmas trabalhando como se fossem uma equipe de filmagem(crew)/teatro para fazer o medo e o terror funcionarem no alvo deles, mas sem o objetivo de matar: o objetivo é fazer com que essa pessoa viva faça um ritual de paz para eles. E, para isso, cada assombração precisa criar o seu estilo único de assombrar, uma marca própria, caprichar no Branding e investir no marketing pessoal. Você não pode  assustar, você precisa que eles saibam quem é você.


Bote sua melhor (ou pior) roupa. Jogue os cabelos para frente. Fique horrível. Capriche nas olheiras. Grite. Se jogue no chão. Se contorça. Tudo é válido para chamar a atenção e conseguir uma oferenda dos mundos vivos, além de, é claro, conseguir toda a fama e prestígio que um fantasma pode querer.


Fonte: site do IMDB
Fonte: site do IMDB

Fonte: site do IMDB
Fonte: site do IMDB

O objetivo, afinal, é conseguir o aclamado Oscar do Mundo dos mortos, o prêmio de “Melhor Susto do Ano”.


Que é um prêmio disputadíssimo.


Se quiser se adiantar pra concorrer a esse prêmio, já planeje aí uma morte horrível pra sair em todos os jornais e aumentar as suas chances de conseguir a licença de assombração (desculpem, eu não resisti, o filme é cheio desse nível de piadas mórbidas maravilhosas) e poder concorrer ao prêmio junto a celebridades, como a Fantasma Contorcionista do 404 e a aprendiz dela, que dizia que queria inovar e investiu em causar terror com uma coisinha que estava começando a se popularizar: a internet. E é claro que, com o Boom da internet, o site amaldiçoado da aprendiz começou a viralizar em uma escalada para a fama e o sucesso, enquanto sua antiga mentora estava fadada a ser esquecida e mofar dentro do quarto 404. Com o sucesso, a ex-aprendiz começou a vir com o discurso de “Fantasmas com talentos são vistos. São os fantasmas parados no tempo que devem se preocupar”.


Nesse caso, ser visto e ser lembrado é uma questão de vida ou morte, mesmo para quem já está morto. Seja em forma de rituais de paz, oferendas, comida, dinheiro ou o que quer que seja preciso, batalhar pelo direito de existir não é uma luta fácil.

           

É aqui que eu vou falar da nossa protagonista, uma garota normal, com roupas casuais e óculos que não mete medo em ninguém, primeiramente porque ela não é vista. Em segundo lugar, ela também não teve uma morte horrível digna de ir parar nos jornais e também não era considerada bonita e padrão o suficiente para alguém postar “que tristeza, ela era tão bonita”. Uma vida mediana, sem nada de especial ou excepcional além do fato de ter morrido muito jovem, e ainda assim, nem foi jovem o suficiente para noticiarem a tragédia.

 

Fonte: site do IMDB
Fonte: site do IMDB

Em outras palavras, se você não foi relevante em vida, também não vai ser na morte.


A batalha pela existência da nossa protagonista começa quando a família dela joga fora, sem querer, o único certificado que ela ganhou na vida: um certificado de participação num concurso de piano, a única coisa que ela tinha na estante de prêmios da família bem-sucedida e premiada dela, com pai médico, a mãe escritora e a irmã sendo uma advogada, enquanto ela tem um mero prêmio de participação na parte de baixo da estante, o objeto que ela mais prezava na vida. Quando o certificado foi parar no lixo, ela começou a entrar no processo de apagamento, significando que ela iria sumir em 30 dias, a não ser que ela conseguisse uma licença para se tornar uma assombração certificada.


Será que tens o que é necessário para assustar?


Bom, a nossa protagonista não tem.

Na verdade, ela não tinha.


Fonte: site do IMDB
Fonte: site do IMDB

É daí que começa uma dinâmica de aprendiz e tutora entre a nossa jovem mortinha que não quer desaparecer e a tutora dela que quer recuperar a fama de maior assombração que ela tinha. E sabe um dos motivos para o grupo do Quarto 404 aceitar isso? Eles precisam cumprir uma Cota!

Esse foi mais um dos meus fatores de conexão com esse filme.


Já trabalhei num lugar em que os professores precisavam bater meta de alunos rematriculados, ou a chance de serem demitidos por causa disso era grande. E existiam vários fatores que poderiam influenciar se os alunos poderiam fazer a matrícula para o próximo semestre do curso ou não, fatores que estavam fora da alçada deles como meros professores da instituição, além das incontáveis horas que eles passavam ligando para os alunos e responsáveis, sem receber nenhuma hora extra por isso, e era uma regra que valia para os professores do nível básico ao avançado.


Foi nesse lugar que, forjadas pelas horas extras não pagas, pedidos absurdos e chefes roubando docinho de monitor que nem era pago, eu formei amizades que vou levar para a vida toda (e gente que eu nunca mais quero ver na vida, e muito menos voltar a trabalhar com essas pessoas).


Quando a taxa de rituais de paz está baixa, todos os espíritos são ameaçados pelo que eu vou chamar de “Patrão dos Espíritos”, inclusive os espíritos famosos, os quais mesmo conseguindo assombrar muita gente, não conseguem bater a meta de oferendas e são apagados, escancarando uma realidade que a gente já conhece, mesmo os que ainda recebem fama e premiações. São tipo os CLTs que recebem mais de 20 mil por mês: você pode até estar bem melhor que os outros, mas ainda é um empregado.

E é melhor bater a meta para o Patrão não resolver te apagar da existência também.


Fonte: site do IMDB
Fonte: site do IMDB

Ficha técnica do filme:

Lançamento: 2024

Diretor: John Hsu

Duração: 1h 50m

Ano: 2024

Origem: Taiwan

 

Trailer do Filme

 

Lista dos 64 melhores filmes do ano segundo o canal do Super 8 (vai que alguma coisa chama a atenção de vocês também):


Se chegou até aqui, ou se perdeu no site, ou tá querendo descobrir por que eu mencionei uma coisa no título e não falei sobre isso durante o texto. Calma que vem o Plot Twist e o Spoiler.


Eu chorei vendo esse filme.


Para dar contexto: resolvi começar o ano bem e, seguindo a lista do canal do Super 8 com os melhores filmes de 2025, um dos filmes que me chamou a atenção foi “Sociedade dos Talentos Mortos” que tava lá no meio. Resolvi dar uma chance para esse filme que, dentre tantos filmes bons recomendados pelo canal, seria aquele que eu ia escolher para começar o ano. Achei que por mais que fosse um filme aparentemente raso, pelo menos iria me render algumas risadas.


Pode ter sido apenas o clima de fim de ano que por si só traz vários sentimentos à tona, alguns um tanto contraditórios. É uma expectativa de novas chances e de uma vida nova, junto com uma tristeza que, no meu caso, ainda junta com o sentimento recorrente de melancolia que eu costumo sentir perto do meu aniversário, que também cai no começo do ano e parece que tudo o que eu não conquistei na vida volta para me assombrar nesse dia.


Agora que eu já falei um pouco sobre o filme e sobre como o universo que ele criou é fantástico e ao mesmo tempo é real, preciso falar do título que dei à resenha e porque esse filme me pegou desprevenida - num momento eu tava rindo e no outro eu tava me controlando para não chorar copiosamente. Esse filme acertou em cheio num problema pessoal que lá no fundo eu sei que muita gente também enfrenta: a sensação de ser o fracasso da família.


Lá pela metade do filme, é revelada a maneira que a protagonista morreu, e é bem mais chocante que um acidente de carro. Como já sabemos, a única coisa de valor que ela tinha era um certificado de participação em um concurso de piano. Acontece que esse certificado foi uma das causas da morte dela: durante um terremoto, várias coisas começaram a cair no chão e ela correu para salvar esse certificado, que foi a única coisa “de valor” que ela achava que tinha conquistado na vida.


Então, nós temos vários takes da protagonista com uma lista enorme de coisas que ela queria ser ou fazer, e riscando uma a uma:


●       Objetivo: ser inteligente. Largou a faculdade. Risca da lista

●       Objetivo: ganhar um concurso de violino. Tentou tocar violino e falhou. Risca da lista

●       Objetivo: Perder peso. engordou. Risca da lista

 

Aí veio o objetivo do final do caderno de coisas que ela tentou ser:


"Ser uma boa filha"


Quando ela correu para pegar o certificado, ela foi esmagada, literalmente, pelo peso das conquistas da família dela. A cena seguinte é ela, já morta, riscando esse último objetivo da lista,o que por si só já teria me desgraçado da cabeça, mas a montagem do filme revela umas coisas por trás que contribuíram para isso, como a pressão que ela sentia para tentar conquistar algo na vida e orgulhar os pais, os quais tinham separado uma parte da estante para as conquistas dela, mas a única coisa que ela tinha era aquele prêmio de participação. Então, tentando conquistar algo para ela, encheu a lista de coisas que ela poderia tentar conseguir, mas foi falhando uma por uma.


São vários cortes rápidos que me deram a impressão de que, na pressa de tentar ser algo rápido, ela não se permitiu falhar para poder aprender, ela errou uma nota no violino e já desistiu porque não nasceu com “talento nato”. Ela precisava acertar.


Foi a mesma coisa com o piano. Com os estudos. Com o peso.


Ela parecia desistir rápido pela simples pressão de ter que ser boa em tudo de primeira, como se ela não pudesse e nem tivesse tempo para errar. Ela precisava conquistar TUDO. DE PRIMEIRA. PRA ONTEM.


E aí temos mais uma cena que a gente acaba descobrindo que quem fez aquele prêmio foi o pai para que ela pudesse acreditar nela mesma. Ele realmente amava a filha e queria estimular ela a tentar conseguir alguma coisa. Ela correu para salvar aquele certificado, não porque era a única coisa importante que ela conseguiu na vida, mas porque foi algo que ela sabia que era falso, mas significava que mesmo falhando, eles ainda acreditavam nela. Assistir aquele pai, que amava profundamente a filha, sabendo que ela morreu abraçada com aquele quadro, chorando... Eu senti a dor dela e a culpa dele de uma forma avassaladora.


Depois do fim do filme, eu e meu boy saímos para dar uma volta na praça tentando processar o que foi que doeu tanto, além de ter chegado à conclusão da garota não poder falhar e errar. Agora, enquanto eu escrevo esse texto, percebi outra coisa que também dói muito.


Uma coisa é sua família tentar te estimular, acreditar em você e querer que você seja melhor e esse tiro sair pela culatra e um gesto que lá no fundo tem muito carinho envolvido, como deixar espaço paras conquistas da sua filha, pode causar uma busca não-saudável da parte dela em tentar ser alguém. Outra coisa, é sua família te pressionar a isso, querer e exigir sempre mais e você tentar fazer de tudo para alcançar as expectativas deles. Lá no fundo o recado é claro: você não vai ser amada enquanto não for como eles. Seja no sucesso ou na mediocridade. Seja nas suas conquistas ou perdas. Se você parece com eles ou não. Se se adaptou aos mesmos moldes de religião, vestimenta, estilo de vida e - lembrando que esse ano tem eleição presidencial - as mesmas opiniões políticas. Se sentir que você só vai ser amada se virar o que eles esperam de você.


Às vezes riscar o objetivo de “ser uma boa filha” é um ato de libertação.



 
 
 

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