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A Metamorfose - Franz Kafka

Você ainda me amaria mesmo se eu me transformasse em um inseto?


Imagem do site: Amazon
Imagem do site: Amazon

Se você não nasceu ontem, em algum momento da sua vida já deve ter se deparado com a história de Gregor Samsa, o “CLT” que, ao acordar metamorfoseado em um inseto, tinha como única preocupação não se atrasar para o trabalho. Acho que uma parte de vocês pode me odiar um pouco após ler esse texto em um momento como esse de começo de ano, já que ele será bem reflexivo, mas com um pouco de paciência, prometo que as coisas podem melhorar depois de piorar um pouco.


A Metamorfose, livro escrito em apenas vinte dias por Franz Kafka (1883-1924) e publicado em 1915, é um clássico da literatura moderna que, apesar de curto, aborda uma profunda narrativa que toca em diversos pontos da estrutura humana e suas relações sociais. A edição utilizada para esse texto é da editora Principis de 2019, com uma belíssima ilustração interna sem muitos adendos e direta à escrita do autor, o que particularmente me agrada muito. Esse pequeno texto fará um resumo breve de quase todo o livro e uma análise pessoal da leitura. Caso queira pular o resumo, é só ir direto para a parte de “considerações sobre o livro” próximo ao final deste artigo.


Capa do Livro "A Metamorfose", versão lançada em 2019.
Capa do Livro "A Metamorfose", versão lançada em 2019.

RESUMO DA OBRA


“Certa manhã, ao despertar de sonhos agitados, Gregor Samsa deu consigo na cama transformado num inseto monstruoso” (p. 9), e é a partir desta pequena frase introdutória que acompanhamos Gregor em sua jornada na qual, nessa primeira parte, tudo gira em torno de acompanhar sua luta em levantar da cama e abrir a porta para cumprir com suas obrigações antes que alguém do trabalho venha até sua casa tirar satisfações de sua falta. Gregor relata com pouco espanto sua nova condição, narrando aspectos fisiológicos de sua mudança não com horror, mas situando o quanto seu novo corpo torna quase impossível se levantar para trabalhar. Ele não parece se importar com a metamorfose em si, mas sim em como ela o limita em cumprir suas tarefas ou o torna dependente dos outros.


Após algumas horas o inevitável acontece, o gerente em pessoa surge não apenas buscando por uma resposta, mas acusando Gregor de ser um funcionário cujo trabalho não estava sendo bem avaliado nesses últimos meses - lembrando: era a sua primeira falta em anos. Apesar da intervenção e justificativas de sua mãe, como resumo da primeira parte desta tragédia, ele enfim abre a porta por puro desespero do escalonamento da situação, machucando sua mandíbula no processo, pois é a única coisa que consegue usar para girar a maçaneta. Todos se espantam, sua mãe desmaia, e o gerente foge aterrorizado. Gregor é conduzido pelo pai, de forma bruta, de volta ao quarto, se machucando mais uma vez ao passar pela porta e sendo trancado pela própria família.


Ilustração de PriWi - Do Livro "A Metamorfose e outras narrativas", da Editora FTD.
Ilustração de PriWi - Do Livro "A Metamorfose e outras narrativas", da Editora FTD.

A partir da segunda parte do livro, acompanhamos as mudanças “drásticas” que a família de Gregor passa a ter a partir de sua transformação, além da adaptação dele e de seus familiares à sua nova condição. Nosso protagonista aprende a se adaptar ao seu novo corpo passando a usar suas “patinhas” para caminhar por sobre as paredes e, até mesmo, a se pendurar no teto de seu quarto, contudo fica sempre limitado a esse cômodo da casa, recebendo poucas visitas de sua irmã mais nova, Grete, que sempre que pode faz uma limpeza no quarto de Gregor. Vemos Gregor definhar, ruir psicologicamente, pouco a pouco. Suas preocupações giram em torno de como a família irá seguir sem seu suporte… O que acontece bem fácil e rápido até, pois ao ouvir seus familiares discutirem o futuro da família, o protagonista descobre que seu pai ainda tinha uma quantia de seu antigo negócio guardado, coisa que escondeu do filho trabalhador (ibid. p. 47-48) e, apesar de velho, passa a trabalhar como empregado de um banco. Gregor se sente cada vez mais inútil e se culpa por deixar sua família nessa situação de terem que voltar a trabalhar ou buscar um emprego. Passa a se “entregar” cada vez mais para a metamorfose:


Muitas vezes, passava longas noites ali deitado e não dormia um instante: limitava-se a arranhar o couro durante horas. Ou então, se entregava à trabalhosa tarefa de empurrar uma cadeira até a janela, subir com esforço ao parapeito e, trepado na cadeira, debruçar-se na janela, evidentemente só para relembrar a sensação de liberdade que antigamente experimentava ao olhar para fora. Porque, na verdade, a cada dia, via com menos nitidez até mesmo as coisas próximas; já não enxergava absolutamente o hospital em frente, cuja vista demasiado frequente Gregor antes amaldiçoava, e, se ele não soubesse muito bem que morava na rua Charlotte, uma rua tranquila, mas completamente urbana, podia acreditar que sua janela dava para um deserto em que o céu cinzento e a terra cinzenta se uniam até se confundirem. (p. 51)

Ilustração de PriWi - Do Livro "A Metamorfose e outras narrativas", da Editora FTD.
Ilustração de PriWi - Do Livro "A Metamorfose e outras narrativas", da Editora FTD.

Na última parte do livro, temos uma breve passagem de tempo. Gregor agora mal se alimenta, o quarto só é aberto para jogarem uma vasilha com qualquer comida e depositarem móveis sem uso e demais tralhas da casa. Sua mãe passa a costurar lingeries para uma loja de moda enquanto sua irmã passa a trabalhar como vendedora e faz curso de taquigrafia à noite. Com a nova organização, a limpeza de seu quarto passa a ser cada vez mais negligenciada. Com essa nova rotina, nós temos o ato final dessa história iniciando em uma noite comum:enquanto a família tenta agradar os novos inquilinos da casa com as melodias tocadas por Grete em seu violino, Gregor, hipnotizado pela música, avança mais do que deveria para fora do seu quarto, e os acontecimentos que se desdobram a partir daqui vão narrar o destino do nosso protagonista… Mas quanto ao final, apesar de ser um livro de mais de um século, deixo como convite para que você busque saber o que aconteceu com Gregor. Afinal, independentemente se você já leu ou não a obra, eu facilmente a colocaria como um livro que vez ou outra vale a pena reler, pois a cada releitura e em cada fase distinta de nossas vidas essa obra fornecerá reflexões e experiências únicas.


CONSIDERAÇÕES SOBRE O LIVRO 


Nesse momento, estimado(a) leitor(a), você deve estar se questionando o porquê da escolha de um texto como esse para abrir o ano de 2026. Bom, todo o início de ano marca o recomeço de um ciclo com expectativas de um futuro melhor, próspero e cheio de projetos, mas também ressalta a importância de deixar o passado no passado. E o que eu gostaria de ressaltar em A Metamorfose, não é o trabalho problemático de Gregor, muito menos o descaso com o qual sua família gradativamente adquire por ele ao longo de sua pós transformação - até porque existem inúmeras análises que partem desse ponto -, e sim salientar que muitas vezes somos Gregor Samsa na véspera da metamorfose.


Veja bem, sabemos tão pouco dele ao longo da narrativa que dificilmente podemos montar um mosaico de sua personalidade. Ele já serviu ao exército, assumiu um trabalho para pagar uma dívida da família, gostava de fazer carpintaria e amava ouvir sua irmã tocar violino…, mas o que mais? Quanto dele se perdeu antes mesmo da transformação? A existência de Gregor, a partir de algum determinado momento de sua vida, passa ser abdicar-se de si em prol de outros que, na verdade, nem precisavam dele tanto assim, pois souberam muito bem buscar seus meios de sustento assim que constataram que não podiam mais contar com ele. Gregor já vinha tendo sua humanidade apagada desde antes de sua metamorfose a qual, na verdade, já vinha acontecendo há tempos.


Gregor Samsa é explicitamente uma projeção do próprio autor e, dessa forma, coloca em xeque toda uma reflexão sobre relações pessoais, profissionais e principalmente familiares. Sua narrativa nos conta de alguém que perdeu tudo de si, que se silenciou e se deixou de lado por se achar na obrigação de cuidar de quem, quando ele mais precisou, o abandonou. 


Com demasiada frequência, a história de Gregor Samsa é percebida como uma alusão a doenças mentais, principalmente a depressão ou o burnout, mas ao pesquisar por críticas e análises de outras pessoas que também leram o livro me deparei muito com algumas associações ao Alzheimer - vide a perda da identidade dentre outros detalhes -, ao envelhecimento e a perda de diversas funções cognitivas e motoras, dentre outras coisas. 


A metamorfose de Gregor reflete um ser humano esgotado, seja pelo trabalho ou pela família, ou pela vida em si, e nisso pode também metamorfosear suas raízes e razões em diversas mazelas que afligem um indivíduo.  Com frequência também vi o questionamento de que Gregor podia voar pela janela e deixar seus familiares e antiga vida para trás, seja como uma barata ou besouro-do-esterco, mesmo como um verme ele seria capaz de sair, mas eu entendo que não é nenhum pouco fácil sair das garras de uma depressão ou quaisquer outras situações que nos corroem psicológica e fisicamente. Ele não tinha forças pois estava definhando e, mesmo isso sendo exposto diante do olhar de todos, ninguém tentou ajudá-lo de fato… na verdade podemos afirmar que eles nem quiseram tentar entendê-lo.


Um dos outros pontos que muito me fez refletir foi como a música, uma forma de arte, remove Gregor de seu estado por um curto período de tempo. Apesar da degeneração física e mental, ele percorre uma longa distância de seu quarto completamente absorto em memórias e anseios despertados pela melodia do violino. Algo que é posto desde as primeiras páginas é o desejo que Gregor tem em poder enviar sua irmã para um conservatório onde ela possa se aprimorar no violino, vemos também logo no começo sua mãe falar dos entalhes de madeira que ele fazia como único passatempo. Para todos nós que nos debruçarmos em qualquer forma ou exercício do campo das artes, sabemos muito bem dessa potencialidade em, mesmo que seja por um breve momento, nos desconectar do mundo à nossa volta e nos permitir expressar quem somos, nossos anseios ou sonhos. Acho válido pontuar muito bem esse aspecto pois, enquanto artista, também percebo que diante de situações massivas e de uma vida que nos molda à uma rotina conformista e por vezes “cinza”, deixamos de nos expressar, deixamos projetos pessoais de lado. Quantos livros, histórias em quadrinhos, músicas ou ilustrações você deixou de criar pois talvez não fosse te dar imediatamente algum retorno, mas que, vez ou outra na calada da noite, assombram sua mente?


Diante disso, a verdade é que gostaria de reformular a pergunta de partida desse texto e, ao invés de te fazer refletir sobre quem te amaria mesmo no seu pior momento, quero te perguntar se você mesmo é capaz de se amar nos seus piores dias; se você mesmo é capaz de amar as piores partes de si que possam surgir por sobreviver a esses mesmos dias. Sei que é uma tarefa quase impossível, mas A Metamorfose nos lembra que, muitas vezes, só podemos contar conosco nesses momentos.



Franz Kafka
Franz Kafka

Longe de querer deixar um gosto amargo em sua boca, vale ressaltar que muitas das obras de Kafka só sobreviveram e foram publicadas porque seu amigo Max Brod se negou a seguir o pedido do autor de queimar seus escritos após sua morte. Kafka não as achava boas o suficiente. É óbvio que existe alguém que, contra tudo e todos, pode acreditar no seu melhor até o fim, mas eu gostaria muito de fazer você, pessoa maravilhosa que dedicou seu tempo para ler esse texto, refletir que nesse novo ano que irrompe é necessário cuidar também de si, dos seus sonhos, seus planos e projetos; que não é egoísmo se priorizar de vez em quando e que você não deve se tornar tão pequeno quanto um inseto para tentar ajudar quem não faria o mesmo por você.


Que não venhamos terminar como Gregor: adoecido por cuidar dos outros, definhando em um quarto olhando para uma janela e sonhando com um passado que não fazia bem. Gregor perdeu seu futuro, mas você ainda tem muitas possibilidades pela frente!


Autoria: Rafael Gonzaga - @rafaelgonzaga.arts

Revisão Textual: Amanda Murta - @amandamurta_





 
 
 

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