Quase Tudo São Flores
- Bell Modesto

- 5 de fev.
- 6 min de leitura
Um símbolo capaz de moldar quem somos

A relação de uma avó com as plantas, conversas nostálgicas e reflexões sobre o utilitarismo presente na vida são temas da HQ “Quase Tudo São Flores”, lançada em 2023, por meio da plataforma Catarse. O quadrinho começa com a autora comprando flores como presente de aniversário para si mesma depois de tantos anos cultivando aversão por elas, mas de onde vem essa aversão?
A HQ é emocionante e foi esclarecedora para questões de longa data relacionadas ao que devemos ser, principalmente enquanto mulheres. O quadrinho tem desenhos tão delicados e aconchegantes e, ao mesmo tempo, carregados de significado e profundidade, esse peso com sutilidade é magnífico. Além de ser a primeira publicação independente de Karipola, torna-se impossível não a admirar.

Feminilidade é sinônimo de fraqueza?
Agora, é realmente um evento canônico de toda garota negar a sua “feminilidade”. Afinal, o que significa essa palavra? Desde criança é reforçada a ideia de submissão e eficiência da mulher. Portanto, a aversão às flores significa o contra-ataque à imposição de padrões e dinâmicas repressoras. Como é dito no quadrinho, é um tipo de revolução, mesmo que inconsciente. Assim, tenta-se encontrar formas de contestar esse mecanismo de controle.
Quantas vezes eu mesma já não deixei de assistir Barbie e ouvir músicas pop por medo de me chamarem de “menininha” ou de “boba”, me forçando a me encaixar nos “desenhos e músicas de verdade”? Na realidade, criamos uma identidade para viver nesse mundo em paz, mas mesmo sacrificando os nossos próprios desejos e sonhos, para o patriarcado nunca seremos suficientes, nunca vamos saber mais do que um homem de tal assunto, porque, segundo esse modelo, somos incapazes de compreender a grandiosidade de alguma obra e idiotas por não saber o nome da tia do guitarrista da banda que está estampada em uma camisa.

O inconformismo não é direcionado às flores superficialmente, ele nasce da problemática de representar um grupo a fim de acorrentar e semear a submissão. A fragilidade, a delicadeza e a futilidade são algumas dessas representações, as quais são usadas para fazer alusão à fraqueza. Não é à toa que é comum dar flores às mães no Dia das Mães, ou às mulheres no Dia das Mulheres, que só costumam ser lembradas em datas comemorativas (isso se forem lembradas), enquanto no resto do ano muitas são violentadas e exploradas. Devo ressaltar que é intragável ver seres com complexo de superioridade e adeptos do patriarcado parabenizarem a mulher por ser mulher nessas datas.
À primeira vista, flores podem acabar sendo consideradas coisas fúteis por muitos, mas como é retratado na HQ, elas detêm uma carga histórica recheada de significado, pois foram um símbolo de luta contra a sociedade machista e conservadora, em específico, na Era Vitoriana no século XIX. Muitas mulheres passaram a utilizar uma linguagem oculta: a floriografia. Essa linguagem varia em diversos lugares no mundo e a autora traz alguns desses significados, como a trepadeira amarela, que “vem pela porta da frente”; o cravo cor de rosa, que é o “fogo de amor”, e o trevo, que “vem na segunda-feira”.
As flores eram usadas como uma forma de se comunicar secretamente com amantes, amigos ou até inimigos, demonstrando a força feminina em encontrar uma forma de expressão apesar da opressão. Sob esse viés, a história de Karipola revela o poder entre duas mulheres de gerações diferentes, unidas pelo vínculo especial entre uma neta e uma vó. Como mulher, acredito que seja natural espelhar-se em outra, afinal, é como dizem: “somos nós, por nós mesmas”. Então ter essa rede de apoio acaba sendo vital para a nossa sobrevivência nesse sistema, seja mental, seja fisicamente, mesmo que ambos estejam destruídos.
Ademais, escrevo isso no início de 2026, período em que os casos de feminicídio no Brasil tornaram-se mais noticiados e recorrentes. Eu trago essa questão pois o quadrinho de Karina retrata a sobrevivência no mundo sendo mulher, recorrendo a mecanismos de defesa para se proteger. E, apesar de fazer um resgate dessa feminilidade após a compreensão da origem dessa repressão, existem momentos em que temos medo de ser feminina, já que pode resultar em ser alvo de assédios e violências (por mais que a vestimenta não deva nunca ser considerada como um convite para ações mal-intencionadas e desumanas). Às vezes, somos forçadas a abandonar a nossa essência e vaidade por isso ser visto como vulnerabilidade e provocação na perspectiva machista e misógina. Eu penso em como deve ser sair de casa e voltar sem se preocupar se você chegará viva ou se terá seu corpo violado de alguma forma, tal como algumas flores são arrancadas por serem belas demais.

Ser útil e produtivo em prol do prazer
Na segunda parte da HQ, a artista paraense contempla o impacto do utilitarismo e do capitalismo na vida. Se flores naturais são tratadas como superficiais, as de plástico não seriam ainda mais? Apesar dessa questão, existe uma diferença entre elas: a primeira tem um certo “prazo de validade”, enquanto a segunda não morre (não estamos falando de flores).
Em vista disso, com o passar dos anos vamos nos tornando prisioneiros da ideia de sermos produtivos o tempo todo, o descanso significa preguiça e inutilidade, sempre que paramos para assistir uma série ou ouvir uma música, vem aquela voz falando: “você deveria estar sendo útil”. Infelizmente, seria muito romântico da minha parte escrever aqui que todos deveriam tirar um tempinho para si, deixando o trabalho de lado. Afinal, o ócio não é um privilégio de todos, existem indivíduos cuja renda do trabalho é sua fonte de sobrevivência, enquanto o ócio só é conquistado após a morte. Dessa forma, as engrenagens desse sistema funcionam, com o adoecimento físico e mental em função do trabalho desumano com desvalorização salarial.
Posteriormente, Karipola nos mostra o anseio pela felicidade e realização pessoal ou profissional em diversas etapas da vida. Não nos sentimos o bastante, o presente não costuma ser vivido como o topo, mas sim como a subida interminável até lá. Estamos sempre cansados tentando ser úteis. Eu também queria ser um gato doméstico, sendo alimentado, tirando sonecas e destruindo a casa porque é divertido, sem a pressão de ter que ser alguém para existir na vida. E se eu não quiser ser esse “alguém”?

As avós são como flores de ipê
Voltando para a relação avó e neta, cada parte da história me cativou de diferentes maneiras, mas quero destacar a relação com a vovó Celeste. Conhecer o retrato da autora sobre esse cuidado, respeito e aconchego da senhora amorosa, que provavelmente já experienciou tanto a crueldade quanto a leveza do mundo, ao lado de uma jovem repleta de questões não resolvidas consigo mesma e com a realidade me fez revisitar o passado, quando eu ainda podia observar a minha avó também cuidando das plantinhas dela. Por isso, esse quadrinho terá um lugar reservado no meu coração, provocou-me a lembrança de episódios do cotidiano que eu não achei que sentiria tanta vontade de viver novamente e a saudade se fez presente a cada página.
Aflorado esse sentimento, eu simplesmente me encontrei chorando quando as flores foram associadas à despedida, já que temos o costume de dá-las aos nossos entes queridos. Quando a minha avó faleceu, o que ela deixou nesse mundo material foram as plantinhas dela, talvez, por isso, tenha mexido comigo, por associar o quintal, as flores, os pássaros e as borboletas à minha avó. A vida é tão efêmera quanto uma flor e concordo com o questionamento da Karina sobre parecer tão estranho uma planta também “morrer de causas naturais”, temos a ideia de que durarão e estarão ali para sempre, mas algum dia acabam se despedindo.
Sendo assim, avós são como as flores de ipê, elas florescem em períodos secos de repente, demonstrando a sua capacidade de renovação e superação em momentos difíceis; podem simbolizar amizade, amor e carinho, além da sua beleza encantadora que nos acolhe diante do caos nesse mundo, mas quando menos esperamos, as flores se despedem e desejamos tê-las acompanhado por mais tempo, mesmo que só para dizer adeus.
Então, conquistar a independência é uma vitória de todas. A minha avó comemorava cada vitória nossa que envolvesse não depender de alguém para sobreviver. Quando as mulheres conseguirem ter sua própria casa, acompanhadas ou não, talvez comecem a cuidar das suas primeiras plantinhas e flores. Além do mais, acho tão linda e fofa essa comunidade que se comunica e presenteia com plantas, só percebi lendo a HQ que realmente existe essa sociedade de troca (e de “pegar emprestado”) das plantas. Mas acredito que isso simbolize uma forma de nos abraçar, um grito de que estamos aqui, juntas.
Por fim, o quadrinho “Quase Tudo São Flores” foi indicado ao Troféu HQMIX na categoria Publicação Independente (Edição Única), e vencedor do 2° Prêmio Mapinguari de Quadrinhos na categoria Melhor Quadrinho. Uma ótima recomendação de leitura com momentos para quem foi cria de avó se identificar, questionamentos que nos cercam diante do capitalismo, crises existenciais que esse quadrinho promete, fora os momentos fofos da diva Jiji para os gateiros (como eu amo gatos frajola, eles já vêm de terno!!!).
Rede social da Karipola (Instagram)
Um pouco mais sobre a floriografia (texto em inglês)
Autora: Bell Modesto - @apenasbell
Revisão Textual: Amanda Murta - @amandamurta_





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