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O AGENTE SECRETO E AS CIDADES FANTASMAS

Sobre o que a gente não vê quando olha a cidade


Fonte: trailer oficial do filme
Fonte: trailer oficial do filme

Imagina só esse quadro:

Recife. Brasil. 1977.


Um homem sem nome e sem passado cruza as estradas do Nordeste em pleno carnaval. Escondendo seus fantasmas de um país que padece sob a ditadura militar, ele volta à cidade de Recife para procurar documentos que comprovem a existência de sua mãe e cuidar de seu filho. Seu veículo amarelo encontra pelo caminho diversos personagens e deixa para trás muitas narrativas: os dizeres de um para-choque de caminhão, que com certeza tem história para contar; um defunto sem nome, estirado há três dias, no chão de terra de um posto de gasolina, invisível para a polícia corrupta, preocupadíssima em conseguir propina. O Agente Secreto (2025) abre as cortinas do nosso filme com uma bagagem cheia de memória e um fusquinha cheio de pirraça.


A Recife histórica de Kléber Mendonça Filho se desenrola sob as rodas desse fusca e conta mais uma história sobre gente e sobre tudo aquilo que o chão e as paredes da cidade testemunham - apesar da insistência de autoridades conservadoras e retrógadas em apagar: os fantasmas que dividem espaço com todos nós, que ainda somos de carne e osso, mas que também somos passado e lembrança.


Assim como em toda obra do diretor, tudo tem uma história para contar: o chão de terra; os brincantes de carnaval; porta-retratos; corpos desconhecidos, falecidos queridos que têm nome; gatos de duas cabeças (Laisa e Elis, divas!) e, especialmente, a cidade - mil vezes a cidade. É impressionante como ela fala, quase grita, testemunha monumental de milhares de vidas e, ela mesma, um amontoado de versões de si própria: a cidade real de 1977, a da memória de Kléber, a fictícia e tantas outras que nós não conseguimos ver.


O diretor não economiza na quantidade de personagens e de fios que se entrelaçam, o que me atingiu de uma forma positiva, porque me fez acreditar que tudo ali era muito vivo e muito real. O protagonista dessa história é Marcelo/Armando, mas ele passa pela tela também como um admirador e observador dessa efervescência, de todo o espírito que cruza seu caminho, sendo ele mesmo um personagem espirituoso e muito carregado de nuances: mesmo jurado de morte e carregado de perdas pessoais, nosso amigo arranja um momentinho para cair nos braços do carnaval da cidade, deixando que ela lhe abrace e engula e, por que não, o encoberte de toda aquela opressão. Os meios que as pessoas encontram para existir em meio de toda aquela melancolia e violência ditatorial são diversos, a insistência em viver e se movimentar seguem sendo um dos mais poderosos.


Fico pensando se O Agente Secreto do título não se refere à essa presença meio fantasmagórica e, mesmo assim muito marcante e viva, que o personagem de Wagner ganha: um homem tentando recomeçar e encontrando a única opção no anonimato, se mesclando e unindo ao povo, deixando a fusão com a cidade cuidar da sua proteção e, inevitavelmente alterando o cenário em que habita e age.


Pensando nisso e olhando para o tanto de narrativas que se sobrepõem no filme, sejam as que são ditas em voz alta ou as que só acompanhamos por meio de fotos e sugestões, penso no trabalho que deu para unir todas no roteiro. Por outro lado, a vida não é assim mesmo? As vidas que as cidades já presenciaram não foram um vai-e-vem sem fim de pessoas que se cruzam, que nunca se cruzam, que falam e que nunca podem falar, que são lembradas ou que já foram soterradas por outras narrativas? E se o caminhar do homem naturalmente altera o seu espaço, quantas cidades fantasmas também não se sobrepõem?


Isso me fez pensar na minha cidade e olha que nem foi a primeira vez.


Em Os Retratos Fantasmas (2023), Klébinho diz amar o centro de Recife. Duas vezes. Lembro de ficar tocada com esse momento na primeira vez que assisti. Na segunda vez, me questionei a respeito dos meus sentimentos sobre minha cidade, Belém do Pará. Não sei, sei lá, talvez eu ame minha cidade também. Entretanto, assistindo a O Agente Secreto, passei a me perguntar “mas qual cidade?”


Sobre a cidade que me enxerga e a que eu não enxergo


Assisti O Agente Secreto pela primeira vez em um cinema de shopping. Quando saí de lá, mais de meia noite, senti que estava levando comigo todos os fantasmas de Recife e coletando outros por onde eu passava.


A cena final mexeu comigo. Desvendamos os destinos dos personagens que acompanhamos pelas últimas 2h40 muitas décadas no futuro e, de quebra, vemos o quanto a cidade se transformou mais uma vez diante da mudança brutal de um dos prédios mais emblemáticos do filme. Marcelo/Armando e companhia agora fazem parte de um passado não muito distante, cada vez mais tênue, retratos de uma memória que naturalmente passa e modifica, mas que também é malcuidada pelas autoridades que deveriam preservá-la.


Caminhando até a saída do Boulevard Shopping (que um dia já foi a galeria Doca Boulevard), olhei com outros olhos uma cidade muito recente. No auge da COP 30, a cidade passava por reformas estruturais e sociais e, diante de mim, uma das mais emblemáticas: um parque linear construído em cima do braço da Baía do Guajará, que corta a Avenida Doca de Souza Franco do começo ao fim. O braço do rio que, inclusive, foi artificializado em canal e por muitos anos já passa por drásticas mudanças, descaracterizado pelo tratamento inadequado e pela dissociação da população com a história da cidade.


Segundo o imaginário cultural, o local era conhecido por Igarapé das Almas, veja só a coincidência. A alma dos Guerreiros Cabanos assombraria tais águas e lugares, bem no centro da cidade. Me pergunto se os fantasmas me olham de volta quando eu procuro por eles nas ferragens e árvores de plástico da nova construção.


Pensei em qual leitura de cidade e cidadania fazem os habitantes de onde eu vivo, desde os mais ricos até os que não tem teto; os que são vistos e os que não são vistos - mas que estão lá, modificando a paisagem assim como os outros, resistindo tanto quanto a própria cidade. Imagina que loucura quantas de Belém ainda não se sabe, quantas camadas de história estão soterradas debaixo de toneladas de gentrificação e apagamento social…


Encerro por aqui, reflexiva sobre como, desde o momento em que o fusquinha amarelo de Wagner Moura entrou em cena, sigo assombrada pelos fantasmas de Belém, que os europeus chamavam de Santa Maria de Belém do Grão Pará, mas que muito antes já era chamada de Mairi.


Links e fontes babadeiras: 

O Agente Secreto, Trailer: O Agente Secreto | Trailer Oficial

Mais sobre O Agente Secreto, memória e cidade: O AGENTE SECRETO: ENTRE A HISTÓRIA E A FARSA


Autora: Amanda Murta - @amandamurta_


 
 
 

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