O LIVRO DOS PÁSSAROS
- Amanda Murta
- há 8 minutos
- 5 min de leitura
- Um comentário sobre trabalho, comunidade e arte -
Belém, 14 de maio de 2026
Autora: Amanda Murta - @amandamurta_
O tempo é apenas o riacho no qual eu pesco. Eu bebo dele e, enquanto o faço, observo seu leito arenoso e percebo como é raso. Sua fina correnteza passa, mas a eternidade permanece. Eu beberia mais [do riacho]; pescaria no céu, cujo fundo é seixado de estrelas - Walden, Henry David Thoreau
Eu já acompanhava as tirinhas da ilustradora curitibana Lark (@larkness_) há algum tempo pelo Instagram e o finado Facebook quando minha amiga - e colega de coletivo – Maiara me falou d’O Livro dos Pássaros, lá por meados de 2025. Na época, eu estava em 3 empregos, trabalhando de segunda à sábado e li o livro nas brechas de tempo entre tudo isso.
Mai me emprestou o livro por outros motivos, mas acabei me apegando a todos os personagens e me identificando demais com o drama (muito bem-humorado) do Roberto, um sabiá aspirante a poeta e artista e de seus amigos pássaros, sofrendo tudo o que um trabalhador CLT pode sofrer.

Caso você nunca tenha ouvido falar das tirinhas, vou fazer um resumão do plot: nosso amigo Roberto não aguenta mais a pressão de ser um pássaro livre e decide arrumar um emprego, seu sonho agora é comprar uma Smart TV. Para isso, ele começa a trabalhar na empresa Catch.co, liderada pelo Mr. Catch, que é... atenção...UM GATO.
É tão absurdo quanto parece e muito mais engraçado do que você pode imaginar. O quadrinho tem pouco mais de 250 páginas e agora, que eu li com um pouco mais de tempo, vi que a leitura é muito, muito fácil e fluida. É interessante como a Lark conseguiu criar tirinhas com começo, meio e fim individuais e que ainda fazem sentido quando colocadas todas juntas no livro. Dessa forma, é muito empolgante acompanhar as aventuras dos personagens se desenvolvendo página a página, sempre com muito humor e timing sarcástico afiados para que o amargo do inferno capitalista seja sentido na íntegra.
Quero dizer, eu devia estar rindo, mas por que estou nervosa por conta de um sabiá fazendo uma entrevista de emprego? Por que estou olhando tão fundo no abismo da minha alma ao ouvir o passarinho Roberto questionar por qual motivo eu preciso de uma Smart TV?

Eu não sei, Roberto, sei lá!
E isso não deve ter acontecido só comigo. O Livro dos Pássaros começou como tirinhas no Instagram da autora (@larkness_) e foi publicado a partir de uma das maiores campanhas já registradas no Catarse, alcançando um financiamento de mais de R$ 500.000,00 em uma campanha que iniciou com pouco mais de R$ 30.000,00 de meta. A HQ também foi premiada com 2 troféus na 36ª edição do Prêmio HQ Mix. A identificação do público é real e muito sólida, não só porque os personagens são carismáticos, mas porque a narrativa consegue comunicar de forma bastante efetiva o absurdo do cotidiano no mercado de trabalho.
Falando nos personagens, cada um tem uma personalidade muito bem definida e traços de identificação muito marcantes: temos a Cristal, a passarinha workaholic; o Zé, o passarinho mais romântico do Brasil; a Abigail, a moça da T.I louca dos signos e, minha favorita, a passarinha Cibele. Cibele é nosso contraponto durante a narrativa: amiga de Roberto, ela leva uma vida bem diferente do amigo e é apenas um pássaro. Cibele não compreende muito bem os motivos que levaram Roberto a se submeter à essa rotina predatória, mesmo tendo todo o céu e o mundo à sua disposição.
Aliás, algumas páginas referenciam o livro Walden, do escritor estadunidense H.D. Thoreau (esse que eu citei no início do texto). Nesse livro, o autor compartilha sua revolta com a sociedade industrial do século XIX e sua decisão de retornar a uma vida simples, cercada pela natureza, onde o ócio e a liberdade eram prioridade. Igual como quando a gente sente vontade de largar tudo e ir morar do lado de um igarapé. Eu mesma penso nisso umas 5 vezes por dia e sempre acabo concluindo que isso é um sonho muito distante, que não existe vida longe dos clink-clank das engrenagens do capitalismo.

Essa, inclusive, é uma ferramenta muito potente do sistema em que a gente vive: a falta de esperança. Afinal, é preciso uma população adoecida, deslocada da própria realidade e muito, muito cansada para acreditar que não tem força e meios para remodelar o mundo em que vive. É muito importante acreditar que uma rotina diária de trabalho mais curta é impossível, pois com um povo deslocado do senso de comunidade, é muito mais fácil acreditar que o fim do mundo é mais viável do que o fim do capitalismo, como diria Mark Fisher. Quando o senhor Catch decide colocar uma divisória entre as mesas dos pássaros, é nisso que ele deve ter pensado. Gente unida pensa muito, daqui a pouco começa a perceber os absurdos que vivem.

Agora, quebrando a linha da desesperança e da vontade de sair correndo na rua, preciso dizer que a Lark consegue concluir a narrativa com um “quê” de esperança muito forte. Nossos protagonistas conseguem existir para além daquela caixinha minúscula, na qual passavam seus preciosos dias de pássaro, a partir da construção de uma comunidade, da expressão artística; da reconquista de suas identidades; do reconhecimento da simplicidade que a vida pode ter.
É interessante saber, inclusive, que esse foi um processo pelo qual a própria autora parece ter passado. Em entrevistas, Lark já comentou que também conseguiu escapar do mundo corporativo por meio das artes e que sente muito orgulho disso e de conseguir viver a vida dessa forma, hoje em dia.
Entre a minha primeira e a segunda lida do livro da Lark muita coisa mudou. Hoje eu também me encontro em um momento da vida em que o fazer criativo, artístico e comunitário me reconecta com quem eu sou e com quem eu posso ser: um fiozinho bem ralo de riacho que se reconecta com o rio imenso de eternidade e existência à minha volta.
Acho que entendo melhor como é importante poder ser insignificante e apenas existir, tal qual um passarinho, para além do que posso produzir e por quanto tempo ainda consigo ser útil a um mercado que só espera a hora certa para nos devorar e substituir.
O que será que então aconteceria se todo mundo pudesse ter acesso à arte e outras perspectivas de vida que não fossem essas rotinas brutais de trabalho? Pensa só que perigo.
Links maneiros:
Entrevistas da Lark:
Instagram da Lark:
Playlist com as músicas mencionadas no livro e que me aparecem nas referências no final da HQ:
Resenha legal sobre o livro: