JUNJI ITO CONTOS ESMAGADORES:
- César Modesto

- 30 de abr.
- 3 min de leitura
O PASSADO SABE A QUEM PERTENCE
Autor: César Modesto - @cesar_mod
Revisão de Texto: Amanda Murta - @amandamurta_

O mangá “Contos Esmagadores” foi lançado em abril de 2023, com 14 contos compilados e previamente publicados entre 2003 e 2006. O mangá foi feito pelo mangaká japonês Junji Ito, autor de terror e horror, especificamente o horror comportamental (estilo de terror baseado no ser humano se comportando de maneira não natural) e criador de histórias como Tomie, Uzumaki, Frankenstein, Soichi, Fragmentos de Terror, e muitos outros os quais não citarei pois ele produz desde 1996. O foco de hoje será o conto “Estrondo”.
Como “Estrondo” é um conto curtíssimo, então terá todo enredo contado aqui.
A história começa com dois amigos fazendo trilha, calmos e conversando até que, de repente, uma enxurrada aparece levando tudo o que encontra pelo caminho e deixando pessoas pedindo ajuda. Aparentemente, um vilarejo foi levado por aquela enchente a qual, assim como apareceu, se foi. Entretanto, no dia seguinte, dúvidas surgem sobre esse assunto quando nem chovendo estava e, no mesmo horário, o evento se repete com as mesmas pessoas, casas, animais e o tempo durado.

Podemos esquecer muitas coisas no nosso dia a dia ou não ter aquela informação de nossas vidas sobre o passado, mas essas verdades, querendo ou não, sempre virão atrás de seus donos através de medos "inexplicáveis" ou anseios. O protagonista tinha um medo de água já superado, mas que voltou de forma leve ao ver aquela cena, e por mais que ele tenha sido adotado e ninguém tenha falado de onde ele veio ou negado contar isso, aquele ambiente parecia familiar. Acima de onde passa a nova enxurrada, em uma casa com uma rede no meio, o protagonista encontra um homem que lhe relata sobre a enchente que levou seu antigo vilarejo e como tentou salvar sua esposa e os outros, mas conseguiu apenas ajudar seu filho pequeno.
Todos podem se afastar o quanto quiserem de suas histórias, mas o Homem passou todos esses anos tentando salvar sua esposa a cada ilusão que aparecia, por mais de 20 anos. Após a ilusão da esposa dele agarrar a rede e soltar, ele pula na correnteza e se vai com ela, restando apenas os dois garotos que faziam a trilha, com a pergunta se aquele homem seria o pai do personagem principal.

A história é curta mesmo, mas reflete sobre passado: continuar ou se afundar nele? O Protagonista teve escolha de seguir em frente e foi o que fez, ou apenas não teve acesso a seu passado para se afogar nele? Mesmo que o homem tenha avisado aos garotos sobre aquilo tudo ser uma ilusão, ele nunca deixou de tentar salvar sua esposa e quando viu algo diferente, ele se vai com a correnteza de uma vida passada que ele nunca conseguiu mudar. Ambos os personagens tinham o mesmo destino, um aceitou e seguiu mesmo assim, com óbvias dúvidas sobre si mesmo, e o outro passou 20 anos tentando vencer um arrependimento que por fim o leva corrente abaixo até ser esquecido. A escolha foi de cada um, mas em nenhum momento eles se sentiram culpados pelos seus caminhos tomados.
Entre os 14 contos, "Estrondo" chamou atenção por fatores bem simples e sinceros: é o terceiro que achei que seria interessante falar. Os outros dois eu me sentiria mal em dar spoiler, mesmo eu tendo que falar da obra, sendo eles o do "A escuridão que suga sangue " e "Os fincados". Então, escolhi um conto do qual gostei, mas que falar sobre era tranquilo; um conto sobre passado e sobre como mesmo seguindo caminhos diferentes, pessoas com a mesma origem vão se encontrar.
Entretanto, o destino não é algo em que acredito fielmente, então o final se basear na escolha do pai e do filho chamou minha atenção. Tudo aconteceu bem rápido para o garoto assimilar; então se ele soubesse da verdade, teria pulado para salvar o pai? Teria ido junto dele, assim selando a história destinada àquela família quando o vilarejo foi arrastado pela água? Esses questionamentos que o conto me provocou, foram o verdadeiro motivo de eu falar sobre ele, e por ser o mais "leve" nos padrões do Junji Ito em relação à narrativa.

O final ser o garoto se questionando depois de tudo, com um painel mais limpo, é interessante, deixa o leitor pensado no superficial, ou tentando tirar algo da história, que é um enredo sobre destino, lugar no mundo e família.
Todos terão acesso as suas próprias histórias porque, querendo ou não, elas sabem a quem pertencem.



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