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Foi apenas um acidente

O som de trauma


Belém, 07 de maio de 2026


Autora da Resenha: Maiara Malato - @_mai.drawing

Revisora Textual: Amanda Murta - @amandamurta_


O começo do ano foi bem corrido para mim: fiquei entre desenhar e ir até a Hemeroteca da Fundação Cultural do Pará (FCP) para pesquisar pessoalmente algumas dezenas de jornais, em busca de informações sobre a Semana do Quadrinho para fazer DQN – Um ponto na história, quadrinho distribuído de graça durante a Semana do Quadrinho Nacional, integrante do Circuito Amazônico de Quadrinhos de 2026. Numa dessas tardes, desci até o Cine Líbero Luxardo, paguei $12,00 (inteira) e fui assistir ao filme “Foi apenas um acidente”, do diretor iraniano Jafar Panahi. Eu já tinha visto o vídeo da Isabela Boscov falando sobre esse filme, então já estava curiosa, porque uma das coisas que a Isabela cita no vídeo é como o diretor estava sendo perseguido pela polícia durante as gravações e saber disso me deixou ainda mais tensa quando fui assistir.


Eu me considero uma pessoa leiga quando o assunto é som e música, só melhorei um pouco recentemente, quando fui fazer a oficina de Batuques amazônicos que rolou no mês de abril deste ano, no Curro Velho. Quando tinha qualquer jogo no qual eu precisasse usar meus ouvidos e qualquer habilidade musical, eu me ferrava. Fiquei um tempão presa num jogo de puzzle de celular porque precisava tocar as teclas do piano na ordem que estavam no telefone, mas para mim elas tinham o mesmo som e eu não conseguia notar a diferença. Mas existia um som que eu reconhecia muito bem, principalmente a distância.


Quando eu era menor, meu pai costumava brigar muito comigo e com meu irmão, principalmente quando ele pegava a gente assistindo TV em época de prova, mas isso nunca impediu a gente de ligar a TV para ver desenho. Toda vez que eu ouvia o carro do meu pai chegando, a gente já saia correndo para se esconder. Quando ele trocou de carro, a gente ainda reconhecia ele pelo barulho das chaves de casa. Sempre dava para saber quando ele se aproximava porque o medo de tomar bronca praticamente me treinou para me esconder assim que eu ouvia o barulho de chave. Mas não qualquer chave, era especificamente o barulho das chaves do meu pai.


Eu tinha medo do meu pai, o barulho das chaves dele era apenas um gatilho.


Sei que é uma introdução desnecessariamente comprida, mas juro que vou dar o contexto em relação ao filme. De todos os filmes que eu já assisti, esses é um dos que eu realmente recomendaria assistir no cinema, mesmo sendo do time #cinemaemcasa. O som nesse filme é algo que eu considero de absoluta importância para o desfecho.


O final me deixou tensa como eu nunca mais tinha ficado, nenhum filme de terror me deixou com tanto medo e tensão assim.


fonte: site do IMDB
fonte: site do IMDB

O filme começa com a gente acompanhando uma família comum: pai, mãe e filha estão no meio da estrada à noite, quando o pai atropela e mata um cachorro que passou na frente do carro. Não tem muito o que fazer, então ele apenas segue com a esposa e a filha. Os pais tentam consolar a filha com relação ao cachorro até que o carro dá problema e eles precisam parar no mecânico. Esse mecânico é o nosso protagonista e é a jornada dele que a gente vai acompanhar.


Quando o homem chega, notamos a dificuldade que ele tem para andar. Ele possui uma prótese na perna, que não parece estar em bom estado, e faz um barulho bem específico quando ele caminha. Enquanto ele começa a andar pela oficina, o mecânico corre para se esconder e responde às perguntas com uma voz falsa, algo engatilhou na memória dele assim que ele ouviu o estalar da perna mecânica.


“É ele, só pode ser ele”



fonte: site do IMDB
fonte: site do IMDB

O som de uma prótese engatilha o protagonista, que entra num estado de pânico e obsessão. Ele então persegue o homem até a sua casa, vigiando de longe e decide que vai acabar com a vida daquele sujeito. Ele persegue o homem durante o dia seguinte, dá um jeito de capturá-lo e escondê-lo num baú dentro da van. Tudo porque ele tem certeza de que o homem com a prótese de metal é o mesmo homem que o torturou durante o regime militar que ocorreu há uns anos. Ele está ofegante, desesperado, com medo e com a chance única de finalmente poder acertar as contas com o passado e acabar com o canalha que destruiu a vida de tanta gente, incluindo a dele.



fonte: site do IMDB
fonte: site do IMDB

Mas será que ele pegou o cara certo?


Enquanto o Mecânico começa a enterrar esse desconhecido no deserto, o homem acorda desesperado, implora pela própria vida e diz quer ficar vivo para ver o nascimento do seu segundo filho; oferece dinheiro ou qualquer outra coisa, mas pede que o Mecânico o deixasse vivo. O mecânico afirma que o homem era o cara que o havia torturado quando ele foi preso, conto como ele fazia questão de bater em todo mundo e fazer aquela prótese ranger ainda mais alto perto dos prisioneiros, apenas para perturbar as pessoas que estavam sob a “custódia” dele. Mas aquele homem não tinha nada a ver com aquilo: a marca da cirurgia na perna era recente, como ele poderia ter feito aquilo há tantos anos sendo que ele ainda nem usava prótese na época? E se ele realmente tivesse pegado o cara errado? O homem que foi o algoz dele era realmente aquele sujeito? Ele tinha documentação, nome, endereço, família, trabalho. Tudo o que o nosso protagonista tinha era o som de uma prótese.


A jornada começa a se complicar mais ainda quando outras pessoas começam a se envolver, reações variadas ocorrem à medida que o Mecânico, na busca de confirmação da identidade do homem, vai atrás de colegas que podem confirmar a identidade do coitado que ele sequestrou e trancou no porta-malas do carro.


fonte: site do IMDB
fonte: site do IMDB

Ele reúne uma fotógrafa, um casal de noivos e mais um sujeito extremamente esquentadinho, cada um deles lembrando de uma característica, cheiro, voz, a textura da pele do homem… cada um deles foi capturado e torturado por um sujeito que, anos atrás, num regime ditatorial, ordenava enquanto eles apenas cumpriam ordens. Todos eles sentiram alguma coisa, o trauma do que eles passaram não deixava com que eles esquecessem, mas medo e trauma também contribuem para decisões erradas, como decidir matar alguém.


Cada discussão fica mais intensa, sentimentos se afloram, mas eles precisam que ele confesse... uma confissão e eles podem ir dormir em paz com a certeza de que tiveram o sangue de um cretino nas mãos. Com o sangue fervendo, a questão não era mais sobre “Esse é o cara certo” e se tornou “eu quero que ele seja o cara certo”


À medida com que o filme avança, com cada um que chega com um novo pedaço de memória sobre aquele sujeito, com a certeza de que eles pegaram o cara certo, eu só lembrava de como eu era criança, com muito medo do meu pai a ponto de reconhecer o barulho das chaves dele e que, com o tempo, eu raramente confundia o barulho das chaves.


O quão confiável é a memória de alguém? O quanto você seria capaz de confiar na sua memória e na sua intuição quando o sujeito que está trancado, amarrado e completamente vulnerável no porta-malas da sua van é alguém que, mais do que tudo nesse mundo, você quer que seja a pessoa que destruiu a sua vida?




Fontes e recomendações


Sobre o filme


Vídeo da Isabela Boscov


Informações sobre a semana do Quadrinho Nacional no Pará


Circuito Amazônico de Quadrinhos


 
 
 

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