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O ARQUÉTIPO DA CINDERELA

Ainda há como inovar nesse conto?


Belém, 19 de março de 2026

Autora: Mandy Modesto - @mandy_modesto_

Revisão Textual: Amanda Murta - @amandamurta_


Pôster do filme Cinderela (2015).
Pôster do filme Cinderela (2015).

A história da Cinderela já foi reimaginada tantas vezes que podemos considerá-la um arquétipo de personagem, ou seja, há um padrão: a menina pobre e injustiçada se atreve a viver um dia de princesa e sua vida é transformada pelo amor, geralmente acompanhada de personagens também emblemáticos - a madrasta, as duas irmãs, a fada madrinha e o príncipe. 


Entretanto, o que nos atrai nesse conto para buscar formas criativas de repeti-lo? Alguns podem se encantar pela ingenuidade da busca incessante pelo amor, outros podem preferir a satisfação de ver a superação da heroína, traduzida por uma ascensão social abrupta, para o descontentamento de uma madrasta motivada pela maldade.


A primeira vez que tive contato com essa história clássica foi através do filme da Disney, lançado em 1950. Eu não sou dessa época, claro, mas tive acesso ao filme no final da década de 1990 ou início dos anos 2000, pois havia uma locadora de fitas em VHS na casa de uma vizinha.


Cinderela (1950)
Cinderela (1950)

Com a licença de meus cabelos brancos, digo aos mais jovens que vocês não compreendem a dinâmica da espera pelo entretenimento. A locadora era a nossa “Netflix” em mídia física: os filmes eram alugados, rebobinados (ou seja, era preciso voltar a fita para o início do filme para que o próximo telespectador assistisse, o que era feito por boa educação ou obrigação) e então devolvia-se o VHS para a locadora. Na sexta-feira geralmente havia promoção de 3 fitas para o final de semana e a disputa era mais acirrada pelos filmes mais populares. E assim Cinderela foi parar no meu videocassete, em nossa TV de tubo.


Foi um encantamento ver uma animação de um desenho mover-se, brilhar e traduzir com tanta leveza essa história. Romântica, ingênua e mágica. Falo das primeiras impressões da infância, ainda longe dessa criticidade adulta. Lembre-se que nosso conteúdo infantil, na tv aberta brasileira, era bastante inadequado…a menos que alguém tenha mudado de ideia sobre os aspectos educativos dos brinquedos da Tiazinha ou os produtos da Carla Perez. E aproveitando a deixa, a dançarina também protagoniza um filme intitulado Cinderela Baiana, de 1998, uma pérola do cinema brasileiro, que é impossível desver, pois é terrível em muitos níveis. Talvez a única crítica boa que eu possa lhe deixar sobre esse filme, é que a escolha de Alexandre Pires como príncipe tenha sido melhor do que a de Sérgio Mallandro como príncipe da Xuxa no filme Lua de Cristal (1990).


Filme Cinderela: A Baiana (1998)
Filme Cinderela: A Baiana (1998)

Enfim, outras Cinderelas também me surpreenderam, de forma positiva, como a Cinderella de 1997, um filme musical cuja protagonista era Brandy Norwood, a primeira Cinderela negra. Para mim, esse filme ficou naquele espaço da memória que parece ser um delírio da mente, mas foi muito gratificante saber que não foi apenas imaginação. Especialmente porque a Whitney Houston como fada madrinha e a Whoopi Goldberg como rainha parecem um elenco muito impressionante para ser mero sonho. Foi incrível ver uma Cinderela com a minha cor, usando tranças e sendo narrativamente validada como uma mulher bonita. Isso ainda me deixa feliz, por isso a importância da representatividade.


Cinderella (1997)
Cinderella (1997)

Depois, com acesso a uma internet precária, minhas leituras me fizeram conhecer a versão bizarra do conto “A gata borralheira", de 1819, escrito pelos Irmãos Grimm, cujo final cruel das irmãs e da madrasta não tem nada de contos de fadas. Nesse ponto, a forma como a crueldade pode ser tão habilmente envolvida nessa narrativa chega a ser uma fórmula. Algumas madrastas são severamente punidas enquanto outras são condenadas às mesmas condições de vida de uma Cinderela.


Da mesma forma, as meias-irmãs geralmente padecem no desenvolvimento do arco de Cinderela. A busca para caber nos padrões de beleza também pode ser implacável, sendo brutalmente traduzida no desejo literal de fazer caber o pé desproporcional no pequeno sapatinho de cristal, como ocorre no filme A Meia-irmã Feia (2025). Este último cito a partir da sinopse, pois ainda não o vi. Mas é comum ver essas personagens apertadas por espartilhos ou chamativas como pavões em busca de atenção. E ao final, também são punidas pela cumplicidade na exploração das Cinderelas, algumas mais e outras menos.


Pôster do filme A Meia-irmã Feia (2025)
Pôster do filme A Meia-irmã Feia (2025)

Um detalhe intrigante, ocorre quando a punição é um elemento narrativo equivalente às maldades da persona da madrasta e das meias-irmãs. Contudo, também implica num castigo quando as próprias Cinderelas são gananciosas demais. E como assim? Cinderela malvada? Sim! Há Cinderelas que reagem às maldades impostas a elas. As novelas mexicanas que trazem as icônicas Rubi (2004) e Tereza (2010) nos mostram como o mundo pode ser injusto com mulheres pobres, mas também nos presenteiam com a jornada de personagens que fazem de tudo para conquistar riqueza e poder. Ao final, a lição contra a ganância vem pela corrupção dessas personagens, pois o roteiro estabelece um final com a obrigação da integridade das Cinderelas.


Novela Rubi (2004)
Novela Rubi (2004)


Novela Teresa (2010)
Novela Teresa (2010)

Considerando todos esses eixos narrativos, devo apresentar a minha Cinderela favorita. 


Certo dia, enquanto assistia a Sessão da Tarde na Globo, começo a ver um filme chamado Para Sempre Cinderela, lançado em 1998, protagonizado por Drew Berrymore. Considerei por muito tempo que esta era a melhor adaptação do conto da Cinderela, pois a personagem Danielle de Barbarac nos surpreende pela inteligência e senso de liberdade. Ela jamais teve a intenção de ir para um baile da corte, mas se disfarça como Condessa Nicole de Lancret, para libertar um dos trabalhadores de sua casa, que foi acusado injustamente de roubo. A identidade falsa da Condessa e a persistência do Príncipe Henry, os envolve numa relação que aprofunda a perspicácia e força de nossa Cinderela e expõe a fragilidade da vida palaciana do irresponsável Príncipe. E como se já não fosse interessante o bastante, ainda temos o próprio Leonardo Da Vinci como fada madrinha. Entre a mentira, o perigo e o vislumbre das dinâmicas sociais, temos uma narrativa que se torna um daqueles filmes de conforto, para assistir a qualquer momento.


Para Sempre Cinderela (1998)
Para Sempre Cinderela (1998)

Para Sempre Cinderela (1998)
Para Sempre Cinderela (1998)


Depois desse filme, achei que nada mais me surpreenderia tanto. Mesmo que existam outras adaptações do conto, as surpresas não decorrem de fatores narrativos, mas de adaptações ao contexto histórico. Talvez a Nova Cinderela, de 2004, interpretada por Hilary Duffy tenha sido interessante por perder um celular ao invés do sapatinho, ou por conseguir jogar a madrasta na justiça, mas também iniciou um novo nicho de histórias de colégio sem grandes novidades.


Nova Cinderela (2004)
Nova Cinderela (2004)

O filme em live-action da Disney, de 2015, também optou por não arriscar muito e entregou um filme bonito com uma boa mensagem sobre gentileza.


E quando pensei que nenhuma outra Cinderela poderia inovar, deparo-me com Sophie Baek, a Dama de Prata, interpretada por Yerin Ha, na 4° temporada da série Bridgerton, disponível na Netflix. A série tem apresentado roteiros pacientes que desenvolvem os personagens desde as primeiras temporadas, para conduzi-los ao momento do protagonismo. Mas Sophie Baek representa uma classe social invisibilizada. 


Episódio 1 da Temporada 4 - Série Bridgerton.
Episódio 1 da Temporada 4 - Série Bridgerton.

Normalmente as Cinderelas são representadas como filhas legítimas de pais falecidos, por isso é mais revoltante para os leitores observá-las sendo tratadas com diferença entre as meias-irmãs, já que elas deveriam ter os mesmos direitos atribuídos ao sobrenome. É tão corriqueiro no arco narrativo das Cinderelas, que foi bastante inovador que Sophie seja uma filha ilegítima. A situação de nascimento da personagem a condiciona a muitas desvantagens sociais dentro da lógica da série e, por isso, ela é completamente consciente e cuidadosa com o próprio bem-estar.


Portanto, caro e gentil leitor, apesar da boa educação, Sophie não poderia pertencer àquele mundo, pela falta de um sobrenome respeitável ou um dote que justificasse um bom casamento. Sua história de amor proibido desafia os princípios dos Bridgertons de casar-se por amor. Os limites são desafiados, pois nas histórias anteriores, as complicações de enredo ainda ocorriam no conforto da mesma classe social.



Sophie Baek é uma protagonista inteligente, mas condicionada a muitas desvantagens na relação com Benedict Bridgerton. E isso é uma novidade para as Cinderelas. O final feliz ao lado do príncipe rico não poderia ser oficial sem prejudicar os demais casamentos das senhoritas Bridgerton's. E nisto, é Benedict que é forçado a fazer uma escolha. Ele passa pouquíssima credibilidade e confiança sobre a segurança do futuro de Sophie Baek nessa relação, especialmente, quando irrita a toda a audiência da série com a infame proposta de que Sophie aceite ser sua amante… 


Quem confiaria nas promessas de um libertino? Especialmente alguém como Benedict, que enjoa de seus próprios interesses inconcluídos. Sophie Baek não recua. Ela rejeita, evita e até expulsa o homem da própria casa! Uma loba! Defende a si mesma e gera impacto na própria sociedade. A guerra da criadagem inicia pela competência de Sophie, que demanda muitos funcionários para substituí-la no trabalho impecável. Desnuda a fragilidade da imagem aristocrática que é preservada por muito empenho de profissionais competentes.



Assim, a irredutível Sophie, aguarda que Benedict tome vergonha na cara e compreenda os próprios privilégios. Nesse caso, não é a Cinderela que precisa se provar cabendo no sapato de cristal. Para ficar com Sophie, é Benedict que precisa se tornar um homem prudente e consciente dos riscos de não se comportar de forma adequada com ela. Um Bridgerton impopular continua sendo rico, mas uma Baek pode estar perdida para sempre nessa dinâmica, caso desagrade a sociedade. Não quer dizer que isso seja uma representação correta da sociedade, ainda é um grande comércio de casamentos, mas é bastante interessante ver as fronteiras de uma esfera social tão cristalizada tentar sobreviver sem romper as normas, mostrando-se uma realidade tão delicada.




 
 
 

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