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FIQUEI COM INVEJA DE “VIAGEM A BELÉM”, LIVRO DE BEBEL ABREU

E percebi que ainda tô mordida com a COP 30…


Em 2025, visitei a Bienal de Quadrinhos de Curitiba pela primeira vez e conheci também a cidade, além de encontrar muitos artistas, comunicadores, representantes editoriais, entre outros. Assim, durante um café, conheci a Bebel Abreu, da editora Bebel Books, uma figura bastante desenvolta e interessada pelos artistas que estavam comigo. Naquela mesa, eu passei despercebida, pois era a figura mais desconhecida dali, afinal, nunca tive muitas oportunidades de viajar para fora do estado do Pará, por falta de tempo e principalmente por causa da grana curta mesmo.


Eu estava concentrada na experiência com o frio da cidade e focada em fotografar o café gourmet caro, bonito e ruim que encontrei para aquecer o corpo, mas estava atenta à conversa, sendo simpática. O assunto em pauta era a visita de Bebel a Belém e uma oficina de cordel da qual ela gostou muito. Bebel estava bastante feliz com a nossa terra, apaixonada, e me chamou a atenção ela ter dito que fez um livro em cordel sobre Belém, e algo nessa frase, me despertou algum sentimento que eu não sabia como identificar…


Capa do Livro "Viagem a Belém", por Bebel Abreu.
Capa do Livro "Viagem a Belém", por Bebel Abreu.

Recentemente, uma amiga querida me emprestou o livro e finalmente tive a oportunidade de conhecer as impressões da autora sobre Belém. Chama-se “Viagem a Belém”, foi publicado em 2025. A produção ocorreu durante o evento DiaTipo Belém, em 2023, um dos maiores eventos de calígrafos do Brasil, no qual Bebel Abreu realizou a oficina TipoXilos & Cordéis, realizada por Leo Gasparine.Eu não conhecia o trabalho de Leo, mas resolvi pesquisar. Depois de muito procurar, achei um perfil de tatuagens com as produções do artista - perfil @fragmentado.art. Encontrei a informação de que ele é de Santos - SP, a partir da própria divulgação do evento.


A edição também contou com uma equipe na produção. A sinopse é apresentada pela Pós-Doutora Sâmia Batista, da UFPA envolvida com o projeto Letras que Flutuam; Manaira Abreu e Letícia Zaffalon, fazem o Design Gráfico; revisão de Lívia Aguiar; parecer técnico de Juliana Valéria de Abreu e o texto e ilustrações feitos pela própria Bebel Abreu.



Em relação aos textos, são interessantes, bem alusivos à nossa cultura paraense - aos lugares, aos bichos e à comida principalmente -, um olhar contemplativo com ilustrações bonitas e elaboradas com a técnica de xilogravura e linóleo, mas mesmo assim, algo me causou desconforto… não foi nada na parte técnica/editorial, é uma edição pequena, em formato A6, mas bem elaborada. Então, conclui que talvez meu real incômodo fosse somente pelo fato de ser ela, a própria Bebel, a elaborar essa edição.


Neste ponto, talvez os fãs da Bebel possam me interpretar como uma pessoa odiosa, e de fato sou muito crítica, e eventualmente até ranzinza, mas não sou dissimulada, tento entender os meus sentimentos, sejam bons ou ruins. Compreendam, não sou uma hater da Bebel, inclusive gostei bastante do quadrinho Boy Dodói, fui apoiadora do projeto, e talvez numa próxima oportunidade, eu possa abordar por aqui como tema de resenha.


Dito isto, também não tenho nenhuma rivalidade feminina com a Bebel, mas honestamente, fiquei incomodada com o fato de ela produzir este cordel sobre Belém, porque ela não é daqui e com base em minha experiência, vivendo na Amazônia desde sempre, no meu coração, eu sabia que ela teria muito mais repercussão com esse livro do qualquer artista nascido e criado na cidade de Belém ou seus arredores…


E eu gostaria MUITO de estar errada…


Durante a COP 30, a publicação representou a Organização das Nações Unidas no Brasil – ONU Brasil. A informação consta na entrevista ao Draft, intitulada “Depois de desbravar o mercado editorial com a Bebel Books, ela transformou seu encanto por Belém em um cordel ilustrado”, escrito por Alex Xavier. A autora inclusive esteve novamente em Belém, para uma sessão de autógrafos, na livraria Travessia, que é um espaço incrível de apoio e muito receptivo aos artistas paraenses.


O livro “Viagem a Belém” contou com tradução de Catherine Balston, jornalista britânica e que atua em São Paulo, na área do turismo e gastronomia. Nas palavras de Alex Xavier, a publicação foi escolhida “para apresentar a cidade-sede da COP 30, aos visitantes de todo o mundo”. O convite de representação partiu de uma funcionária da comunicação da ONU de nome desconhecido.




Durante a COP, a rede de televisão NBC, dos Estados Unidos, inaugurou um estúdio temporário que presenteou os convidados do evento com exemplares de “Viagem a Belém”. Todas essas informações estão na entrevista citada, e Bebel conta que já passou por muitos lugares, nasceu em João Pessoa, viveu em Brasília, Vitória, Alemanha e por fim, São Paulo. Nas palavras dela:


Essa vivência nômade se refletiu na curadoria dos livros que ela viria a editar. “Não ser de um lugar só me deu esse olhar muito diverso, aberto”.


Refletindo sobre todas essas informações e sobre minha própria leitura, eu percebi que estava sim, com inveja de Bebel Abreu. Não vou minimizar o sentimento, mas farei a argumentação sobre o sentido…


A perspectiva de Bebel Abreu, no livro, é turística. Ela viaja com a irmã, com o pretexto de estar em um congresso, e aproveita as delícias do Pará ao longo de uma semana. Neste tempo, Bebel aproveitou bastante, sofreu com o calor, tomou açaí, comeu pescada amarela, comeu charque, sentiu o cheiro do pitiú, cantou, dançou, foi a Soure, atravessou para o Combu e ainda voltou para passear nas Docas.


“Mergulhamos lá no rio,

de bubuia nós ficamos.

Depois de tomar um coco,

nosso destino alcançamos:

almoço com linda vista.

Que beleza é ser turista!

-Mais um mergulho e já vamos!

” Trecho do livro “Viagem a Belém”, 2025, pg. 25.


Esse livro me fez refletir sobre as coisas que eu não consigo aproveitar em paz.


Senti inveja porque eu vivi aqui minha vida toda e não consigo aproveitar as delícias do Pará por excesso de trabalho e falta de dinheiro pra isso; inveja porque, durante a COP 30, muitas pessoas que vejo envolvidas com a Arte e a Cultura ficaram do lado de fora, sem representar a própria terra; inveja porque a realidade de nossos artistas é cruel, de trabalhar incansavelmente, não ter tempo e nem dinheiro para aproveitar a riqueza que temos…


E do fundo desse sentimento, sei que meu incômodo nem é diretamente com a Bebel em si, mas com a facilidade que uma pessoa de fora consegue oportunidades… E ela tá fazendo o dela, enquanto fazemos o nosso corre, mas competimos com muita desvalorização e descaso. A ONU poderia ter considerado prudente, por exemplo, convidar a Academia Paraense de Literatura em Cordel, fundada em 2018, com 40 membros de todo o estado do Pará; as pessoas do “Encontro de Cordelistas da Amazônia”; as pessoas que pesquisam sobre o Cordel na Amazônia… como não vou me sentir mal, sabendo que para os nossos não tem reconhecimento?


Esse sentimento é uma mágoa com nossa própria condição como artista da Amazônia. A gente paga MEI, paga imposto; se cadastra nas coisas, faz curso, tenta de novo; se inscreve pra editais, é reprovado com justificativas ridículas; vê nossos espaços culturais sendo entregues sem nenhuma preocupação pra gente que não tem apreço e nem formação nenhuma na área da cultura; vê o desmonte de espaços inclusivos acontecendo porque as pessoas querem mais e mais turistas,

há incentivo do turismo predatório, que vai nos expulsando da nossa terra, tudo vai ficando caro…


É lavagem de dinheiro com R$ 3,8 milhões a partir da cultura… é recém-formado em matemática no MABE… é corte de orçamento… é perseguição a jornalista… é acervo abandonado… é quebra de calçada histórica… E, mesmo assim, A GENTE INSISTE EM CONTINUAR TRABALHANDO COM ARTE E CULTURA PORQUE É A NOSSA ANCESTRALIDADE E EXISTÊNCIA QUE TÁ EM JOGO!


As pessoas não tem ideia da dificuldade que é ser criativo e ter que preservar o que está sendo atacado ao mesmo tempo. Esse livro me fez lembrar da paz que não temos para aproveitar o que é bom, porque o turista é mais bem-vindo do que os moradores desta terra.


REFERÊNCIAS


Informações sobre o livro.


O evento DiaTipo Belém.


Oficina de Leo Gasparine:


Informações sobre Leo Gasparine:

Link:


Viagem a Belém - ONU:

Link:


Catherine Balston -


Incêncio na COP 30:

Link:


Cordel na Amazônia:

Link:


Descaso:

Link:



 
 
 

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