É DIA DO QUADRINHO NACIONAL
- Mandy Modesto

- 29 de jan.
- 5 min de leitura
E não “sabor” Dia Nacional do Quadrinho... Há diferença!

Entre o Dia do Quadrinho Nacional e o Dia Nacional do Quadrinho há prioridades distintas. No primeiro caso, exaltamos nossos quadrinhos brasileiros. No segundo caso, escolhemos um dia nacional para comemoração dos quadrinhos, que não necessariamente precisam ser de autoria brasileira. Compreende? O sentido depende da ordem dos fatores que, invertidos, alteram muito o significado do que estamos celebrando.
No dia 30 de janeiro, é possível que você veja diversas capas de quadrinhos estrangeiros e super-heróis emplacando poses dinâmicas na data comemorativa, com aquela estética tipicamente estadunidense, com onomatopeias saltando em balões pontudos e explosivos “pow”! “crash”! “bang”! Cores vibrantes, linhas de efeito e retículas (aquelas bolinhas pretas)... Isso é bem comum. A visualidade comunica muita coisa, e pode também traduzir preferências de leitura.
Entretanto, o que celebramos nesse dia são os quadrinhos nacionais! E insisto nisso, porque como nortista - enjoada que sou – sempre destacarei que é corriqueiro ser excluído dessa categoria nacional, ao ponto de que nem sei se queremos realmente em algum momento entrar nessa categorização. Quando nossos quadrinhos são um sucesso, nossas narrativas encontram as barreiras do regional. Algo que compartilhamos com o pessoal do Nordeste também.
De todo modo, essa exclusão não é uma particularidade do cenário de quadrinhos, ocorre de maneira geral com elementos culturais amazônicos. Basta observar o fenômeno mais titânico e viral de nossas polêmicas de pertencimento, uma castanha que sempre foi “-do-pará do nada fica morta de cara e torna-se “castanha-do-brasil”. É assim, vira nacional quando passa a importar, ou exportar, no caso.
Só ficaria mais ofendida se a novela gráfica Castanha do Pará, de Gidalti Jr., lançada em 2016, trocasse de nome para Castanha do Brasil e fosse adaptada para ocorrer em São Paulo ou Rio de Janeiro. Inclusive, este foi um dos quadrinhos que atravessou o país e, em 2017, conquistou o prêmio Jabuti na categoria de histórias em quadrinhos. Para o Norte, foi um atestado de qualidade artística e narrativa. É como sair com a camisa do time depois de subir para a série A, mesmo que alguns não possam entender essa sensação.

Dentro de nossa regionalidade, também nos adaptamos, devo dizer, ficamos acomodados a fazer nossas edições na marra, lombadas canoas, o mais barato possível.... O cenário independente de cada localidade nortista priorizou contar as histórias, do jeito que fosse, e compreendeu que a união viabilizava a produção de quadrinhos. Assim nasceram as diversidades de histórias dispostas em coletâneas. Da grande inundação de coletivos, grupos, estúdios e outras cooperativas, surgiam publicações colaborativas, constantemente caindo na maldição das pequenas histórias que encerram com desgraçada inscrição “continua...”, mas que nunca retornam para dar essa continuidade prometida.
Como ex-conselheira editorial do Coletivo Açaí Pesado, lá em meados de 2020 e 2021, digo-lhes que isto ocorria pela inconsistência de participantes no grupo. Pessoas sonhavam em publicar histórias em quadrinhos, mas não pretendiam seguir carreira na área, bastando-se na realização do sonho e se contentamento com a frase “ei, sabia que eu já fiz um quadrinho?”, para puxar uma conversa por aí.
E sinceramente, não há erro algum em fazer algo que se gosta sem a pretensão de transformar isso em profissão. Nem tudo é sobre lucro. Inclusive, muita coisa nos quadrinhos independentes nortistas não é, “não é sobre ter todos os dinheiros do mundo pra si... (naquele melódico trem bala).”.
Mas batalhando para tornar esse cenário mais rentável e valorizado artisticamente, surgiram grandes nomes, como Helô Rodrigues (com suas tirinhas incríveis), a premiadíssima TAI (que levou 3 HQMIX e hablou bastante por nós em 2025), nossa companheira de coletivo Maiara Malato (uma máquina de perspectiva com quatro pontos de fuga), as incríveis mulheres do Serendi, com Lívia Guimarães, Marina Pantoja, Júlia Lustosa... e tantos outros/as!
Há um legado que deve ser respeitado nessa cena de quadrinhos! Não é fácil trabalhar nessa área e, em tempos de inteligência artificial generativa, tem sido uma disputa ainda maior por território, ética e bom senso. E embora existam artistas que se rendam à essa tecnologia, para oferecer um produto final genérico, eu escolho acreditar num futuro que não seja hipócrita o bastante para se deixar afetar por discursos vazios.
Alguns “futurismos” por aí degradam nossos recursos naturais enquanto ostentam a bandeira de representação amazônica, como um totem qualquer, alegórico e oportunista. Um pensamento fraco, egocêntrico e imaturo. Falta pensamento coletivo e respeito... E nisso, temos o privilégio, de sermos amazônidas e entender essa conexão, ou ao menos, a oportunidade de buscar saber mais. Talvez por isso se torne maior a ofensa de um amazônida que folcloriza a si mesmo para reforçar narrativas sobre o ideal de Amazônia exótica.

Acho que estou já divagando..., mas retornado ao tema, digo-lhes que estou na produção de quadrinhos desde 2017, recebi o apelido de “mãe dos quadrinhos paraenses”, talvez por ser desaforada de provocar mais mulheres a contar suas histórias a partir dos quadrinhos, mas não sou a primeira nessa linguagem. Antes de mim tínhamos Adriana Abreu que foi membro do grupo Catarse, Gisele Henriques que trocava fanzines por carta com o Brasil e Lais Gabrielle de Lima, a qual lembro-me da Faculdade de Artes Visuais da UFPA: ela me presenteou com um marcador de página com uma tirinha sobre uma personagem muito incomodada de como colocar o sutiã sozinha, e que me encantou pela simplicidade de um tema invisibilizado.

E antes de todas elas, tínhamos a bibliotecária Ruth Selma, que não era quadrinista, mas que deveria ter muita relevância em nossa memória dos quadrinhos paraenses, pois acreditou naquele bando de moleques empolgados do Ponto de Fuga, na década de 90. Ela permitiu exposições, eventos, palestras e foi essencial para fazer essa linguagem florescer.
Entre tantas mulheres incríveis, não me senti digna de receber esse apelido de “mãe dos quadrinhos paraenses”, mas de todos os meus títulos, este recebo com honra e humildade. Se imposta pelo apelido vier a tarefa de inspirar mais gente a narrar suas histórias, vencer a síndrome de impostor e rasgar esse país com a qualidade de nossa escrita e arte, saibam que sou uma mãe coruja insuportável! Tenho filhos simbólicos que são monstros dos quadrinhos, quero ser lembrada como uma Equidna do Norte - Mãe de todos os monstros do quadrinho paraense - no auge da “desumildade”. Tenho orgulho de cada quadrinista que luta pela nona arte!

E como uma mãe pássaro, às vezes precisa empurrar os passarinhos do ninho, para que usem suas asas...Digo-lhes que gostaria de ver nossos quadrinistas se arriscando em produzir histórias maiores, personagens complexos, roteiros que tragam aflição, riso, choro, com traços que demonstrem nossa riqueza visual/artística. Vejo que estamos usando pouco nossos dotes, poderíamos ousar mais... Abram suas asas... Arrisquem! Não para agradar os olhares de fora, mas para consolidar nossa intensidade criativa.
Autora: Mandy Modesto - @mandy_modesto_
Revisão Textual: Amanda Murta - @amandamurta_





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