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AMAZONPUNK

UM NOVO ISMO? QUEM SABE?


Belém, 02 de abril de 2026


Autor da Crítica: Keoma Calandrini (artista convidado) - @srkoema

Revisora Textual: Amanda Murta - @amandamurta_


Marituba, por Keoma Calandrini, 2026.
Marituba, por Keoma Calandrini, 2026.

Hoje é perceptível uma enorme quantidade de artistas amazônidas expressando suas ideias, incômodos e crenças por meio de várias linguagens artísticas e esse aumento expressivo, sem dúvida, se dá pela facilidade com que a essas obras se propagam no ciberespaço e nas redes sociais. Esses lugares têm proporcionado às pessoas a facilidade de expor e comunicar o que há de mais importante em torno das discussões contemporâneas sobre a região amazônica e, dessa amálgama, surgem fenômenos que carregam ideologias e perspectivas afirmativas desses artistas.


Por exemplo, o Amazonfuturismo, criado pelo ilustrador Rondoniense João Queiroz, nos traz a perspectiva de uma Amazônia utópica onde a cosmovisão indígena vence e se estabelece diante das ameaças das grandes corporações do capitalismo predatório. O Afrofuturismo Amazônico segue a mesma premissa, entretanto, com o protagonismo da cultura de África muito predominante na nossa região, desde música, culinária e aspectos religiosos e cosmogônicos.


Na contramão dessa visão utópica de futuro (que fique claro que não tem nada de errado nisso), alguns artistas têm exercido um papel de denúncia mais evidente nas produções visuais. Uma espécie de “antiutopia”, derivada dos punks das décadas de 1960 e 1980, têm mostrado características semelhantes e diferentes desses mesmos “vizinhos”.


Nessa direção, as cidades amazônicas são os cenários principais das narrativas visuais. Temas como a inevitável verticalização da metrópole, o aumento da densidade demográfica, a desordem das construções urbanas, o lixo urbano produzido, a poluição visual causada pelos grandes telões de propaganda, constantes alagamentos nos períodos de chuva em áreas de risco; a degradação da fauna e da flora causados pelas ações das grandes empresas exploratórias, que estão diretamente aliada às elites econômicas, políticas e familiares; a iminente implantação de um tecnofeudo no Norte do Brasil; o crescente movimento extremista de conservadores pedófilos e corruptos na política e, na crista dessa onda, ainda temos os “personagens” entreguistas que coadunam com aquele “otimismo da vale”...


Piff…


Ilustração de Mileide Barros, 2024.
Ilustração de Mileide Barros, 2024.

Nesse sentido, as artes intencionalmente carregam uma aura pessimista com relação ao futuro, porque sabemos que todo o “progresso” e “desenvolvimento” na região não respeita tradições, comunidades e nem a biodiversidade. Então, toda imagem que é apresentada, tem o caráter de denúncia, crítica e resistência, mesmo tendo em vista que esse “futuro bom” nunca vai chegar.


Esse movimento se difere dos demais, pois seus trabalhos não se constituem de produções que utilizam inteligência artificial (tem outro vizinho nosso que tem utilizado, viu? E nos parece, no mínimo, contraditório).


Esse tema é importante para o movimento pois a utilização dessa tecnologia degrada diretamente o meio ambiente, utilizando fontes de água potável em detrimento do uso consciente desse recurso. Da utilização indevida da produção artística de artistas independentes, consequentemente da automatização e da “fast-foodzação” da criação e do fazer artístico, surge um consumo imediato e “prático” do que poderia ser uma arte artesanal saborosa, saudável e natural, entre muitos outros.


Ilustração de Fernando Carvalho, 2005.
Ilustração de Fernando Carvalho, 2005.

Nesse “Punk Amazônico” a ideia não está em salvar o futuro, até porque não dá mais tempo, o que a gente tenta é dar continuidade às denúncias dos problemas a partir da nossa experiência com o mundo, para no final, termos o gostinho do “Viu? Nós avisamos!” e na nossa boca isso vai ter aquele gosto de… maniçoba do círio.


No Amazonpunk não existe a perspectiva da dignidade e do pertencimento, esses valores foram destruídos juntos com a natureza e a ancestralidade. Então, como projetar um futuro bom, se além da janela só vemos…fumaça?



 
 
 

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