BOCA DE SIRI
- Amanda Murta

- 12 de mar.
- 3 min de leitura
Glorioso Guaiamum botando moral na especulação imobiliária
Belém, 12 de março de 2026
Autora: Amanda Murta - @amandamurta_

Quando segurei o quadrinho Boca de Siri, de Paulo Moreira, pela primeira vez, três pensamentos me passaram pela cabeça:
a) É episódio de praia de anime;
b) Que lindo o azul e o verniz localizado na capa e
c) Tem siri mesmo, será?
Ao final da leitura vi que tinha siri sim, mas não era exatamente do jeito que eu esperava; era muito melhor. Eu sou fã de bicho gigante e robô que briga desde que me entendo por gente, então quando o nosso querido Guaiamum surge das águas da Praia do Cabo Branco, eu já me incluí automaticamente no seu fã-clube e me declarei também uma Guaianática. Glorioso!
Mas comecemos do começo: a HQ de Paulo foi lançada em outubro de 2025 pelo selo Pitaya, da editora Harpercollins (chique!), numa edição charmosíssima de lombada quadrada. A narrativa acompanha 3 amigos - Ygo Pressão, Vitória Boy Doida e Duda - que se reúnem com suas bicicletas para cruzar a cidade de João Pessoa para testemunhar Guaiamum, o siri gigante conhecido da população desde 1977, o qual retorna para impedir o alargamento da orla da praia, obra tocada pela prefeitura.
É com muito bom humor que a gente compreende a realidade do que acontece na vida daqueles personagens: a prefeitura tem promovido uma empreitada milionária, sem fins muito objetivos e que vai definitivamente afetar o equilíbrio ambiental da região. Com o discurso muito furado de que aquilo vai trazer benefícios à população a longo prazo, o prefeito Jotinha passa por cima das necessidades locais em nome da gentrificação. Aliada a casas de apostas e à arrecadação de recursos muito questionáveis, a prefeitura lança mão de armas secretas absurdas (sem spoiler, mas já dei dicas!) para garantir que seu plano seja realizado. Foi cascando o bico que eu peguei uma raiva sem fim de todo o núcleo da prefeitura.
O interessante é que a cidade realmente passou por esse processo entre 2021 e 2023, quando o governo local tentou tocar o mesmíssimo projeto, com as mesmíssimas justificativas. Dessa vez, não houve a intervenção de um siri de mais de 30 metros, mas a obra foi cancelada. Paulo conseguiu registrar com muita desenvoltura e identidade uma discussão seríssima sobre como a especulação imobiliária é corrosiva para o fluxo de vida local. É aos berros que o prefeito Jotinha acusa o Guaiamum de querer impedir o progresso da cidade.
E, como se a vinda de uma criatura viva, gigantesca e nativa, com o intuito de botar moral e destruir uma obra que prejudica a natureza local não fosse catártica o suficiente, Paulo nos presenteia com um passeio de mais de 100 páginas pela sua cidade natal. Gosto demais de como a cidade vai passando junto com as bicicletas das crianças e a gente tem a chance de sentir o clima da população, a dinâmica da cidade e ir catando, de pouquinho em pouquinho, detalhes da narrativa.
Na expectativa do Guaiamum, vamos compreendendo a narrativa de forma bastante orgânica: através dos pichos, dos outdoors, da boca da própria população, entendemos mais sobre nossos personagens e a ansiedade pelo que vai acontecer cresce. Nem é preciso que os personagens falem; a cidade faz o trabalho sozinha.


No final da HQ, temos alguns extras em que descobrimos que a criação da narrativa começa com passeios que Paulo fazia por João Pessoa. As paisagens surgem antes dos personagens e da narrativa em si, então é normal que haja um espaço especial para as folhas, as calçadas, a vivacidade da relação entre os moradores. Sou fã do Guaiamum de carteirinha, mas fiquei muito feliz com a cena em que Ygo e Vitória vão ao shopping e a gente pode acompanhar as barganhas, a música, a vida acontecendo ali dentro. Quando Vitória surgiu com uma caixinha de música com o formato de cabeça de cachorro, eu fui ao delírio. É isso que eu quero ver, esses detalhes, essa coisa toda que acontece no cotidiano.

Em determinado momento da aventura, os meninos se deslocam até outro ponto da praia em busca de uma vista para observar o siri gigante botando moral e temos a oportunidade de ver vários quadros, pacientes em relação à cidade que se desenrola, mostrando as rodas da bicicleta… sublime.
Boca de Siri é uma leitura essencial, deliciosa e necessária, tanto pelos temas que aborda quanto pelo traço e potência narrativa de Paulo Moreira. Fui lendo, lendo e quando vi, já tinha acabado e eu estava maquinando visitar João Pessoa para andar de bike, observar a paisagem, ouvir Dodô Pressão e visitar o maior ponto turístico de todos: a praia onde o fantástico, glorioso, fenomenal Guaiamum gigante apareceu. Desde 1977.
Massa demais, boy.
Links gloriosos:
Alargamento da praia:
Entrevistas do Paulo:



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