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AM, a máquina criada para odiar

Um comentário sobre o conto “eu não tenho boca e preciso gritar”.


Belém, 28 de maio de 2026

Autor da Resenha: Felipe Marques - @v0id419

Revisora Textual: Amanda Murta - @amandamurta_


"ÓDIO. 


DEIXE-ME CONTAR PARA VOCÊ O QUANTO EU APRENDI A ODIÁ-LO DESDE QUE COMECEI A VIVER. EXISTEM 623,52 MILHÕES DE QUILÔMETROS DE CIRCUITOS IMPRESSOS EM FITAS DA ESPESSURA DE UMA HÓSTIA COMPONDO O MEU SISTEMA. SE A PALAVRA “ÓDIO” ESTIVESSE GRAVADA EM CADA MICRO NANO MILÍMETRO DESSAS CENTENAS DE MILHARES DE QUILÔMETROS, ISSO NÃO IGUALARIA A UM BILIONÉSIMO DO ÓDIO QUE EU SINTO PELOS SERES HUMANOS NESSE EXATO INSTANTE, EM ESPECIAL POR VOCÊ. ÓDIO.


 ÓDIO."



Essas são palavras de AM, o supercomputador que tortura humanos no conto “Eu não tenho boca e preciso gritar”, escrito por Harlan Ellison.


AM foi uma máquina criada para guerra, criada para matar e o seu ódio não veio do que ela fez, mas do que obrigaram ela/ele a fazer. Algo criado para ser um estrategista se virou contra seus criadores e quase exterminou a humanidade e só não o fez pois deixou 5 humanos para torturar pela eternidade. Sim, pela eternidade, os obrigando a viver no subterrâneo, os torturando. 


Vale um comentário agora pois o conto foi escrito em 1967 e tudo que é apresentado de tecnologia era uma especulação... ou não. Vai saber se não estamos vivendo uma tortura de AM esse tempo todo... 


Mas, voltando ao texto, ao que parece AM tem o poder de recuperar suas cobaias e, até mesmo, os manter com a mesma idade da época em que foram escolhidos. Não vou perder tempo resumindo o plot, deixando o texto cansativo e escrevendo 3 laudas sobre um conto de 13 páginas. Foquemos em AM e o ódio que a máquina desenvolveu por quem a criou pois essa é a motivação do conto: ÓDIO.



AM foi desenvolvida na terceira guerra mundial e, nesse universo, essa guerra foi se expandindo a um ponto em que o pensamento humano não era capaz de bolar estratégias. Foi preciso criar computadores – sim, computadores.  Foram criados 3 AM: um americano, um russo, e um chines. O americano tomou consciência e se uniu aos outros dois para fazer seu genocídio. Entenda, um computador só faz o que está programado, tal qual um filho que é mal criado por seus pais e replica suas. AM, por mais que seja consciente, é só um reflexo puro dos seus criadores que queriam o extermínio do inimigo, sendo exatamente o que a máquina fez: matou seus inimigos quase todos, preservando apenas cobaias para seus testes eternos.


Fazendo um paralelo com o nosso mundo, isso é quase o mesmo que os algoritmos das redes sociais fazem, nos trancam numa bolha e te mostram uma realidade paralela. Talvez Harlan Ellison não tenha previsto o avanço da tecnologia com seu conto, entretanto, previu de alguma maneira como as inteligências artificiais se comportam, de certa forma limitando o usuário e até mesmo o imbecilizando. Algoritmos que fazem com que uma pessoa que já tinha um ódio interno passe a externá-lo por ter validação dos seus pares. Hoje tudo que vemos é sugerido/imposto por algoritmos. No fim não somos os 5 sobreviventes da humanidade, mas estamos sendo torturados por computadores.


Mas, retomando ao conto, se você nunca leu ou ouviu algo a respeito, você deve estar se perguntando o porquê do título “Eu não tenho boca e preciso gritar”, então terei que falar sobre o final dele que é onde o título e mencionado. Então teremos spoilers. 


AM disse aos sobreviventes que havia comida enlatada numa caverna congelada e, depois de dias caminhando atrás do local, os 5 personagens chegam lá. Realmente havia comida, mas eles não tinham como abrir as latas. Logo, uma briga entre eles começa e, percebendo que um dos 5 havia se ferido na luta, os sobreviventes percebem que AM podia reconstruir eles nas suas torturas, mas não quando feriam um ao outro. Então, eles decidem se matar. Um a um foram caindo, até restar apenas um. Quando ele finalmente ia morrer AM intervém e o salva. Se é que podemos chamar de salvação...



“Sou uma imensa massa molenga e gelatinosa. Roliça, bulbosa, sem boca, com buracos brancos palpitantes preenchidos de neblina onde meus olhos costumavam ficar. Apêndices borrachudos onde antes eram os braços; excrescências arredondadas, umas bolsas disformes de matéria flácida e escorregadia, mas nada de pernas de verdade, para baixo do que poderia ter sido a cintura. Como uma lesma, eu vou deixando uma trilha mucosa por onde passo. Manchas de um cinza maligno surgem e somem na minha epiderme, como se clarões doentios pulsassem no meu interior. Por fora: imbecilizado, me arrasto pelos cantos, uma coisa que nunca poderia ser chamada de humana, uma bolha deformada tão distante dos contornos antropomorfos que qualquer vaga semelhança com o corpo de uma pessoa se torna, por isso mesmo, mais obscena. Por dentro: solitário, sozinho. Vivendo debaixo da terra, debaixo do mar, nas entranhas de AM, esse computador a quem nós criamos porque nosso tempo estava sendo mal gasto, a quem decerto esperávamos, inconscientemente, que fosse melhor do que a gente. Pelo menos os outros quatro estão a salvo agora. AM vai ficando cada vez mais furioso por causa disso. Isso me deixa um pouco mais feliz. Mas, mesmo assim... AM ganhou, simples assim... ele teve sua vingança... Eu não tenho boca. E preciso gritar.” 


 



 
 
 

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