A semiótica do rosa em personagens
- Bell Modesto
- há 50 minutos
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Uma cor pode construir a narrativa?
Belém, 21 de maio de 2026
Autora: Bell Modesto - @apenasbell
Revisão Textual: Amanda Murta - @amandamurta_

Era final de tarde e eu estava assistindo ao vídeo “Psicologia das Cores no Cinema” do canal Gaveta, no YouTube. É interessante saber que algo – no caso, a cor - pode ser usado estrategicamente para conduzir o telespectador a sentir algo. Então, nesse texto, vocês acompanharão o meu processo de entendimento da tríade semiótica de Pierce em personagens ficcionais, começando pelo signo, que pode ser inúmeras coisas com significados; o objeto, que é uma representação do signo e o interpretante, o qual será a interpretação realizada a partir da relação do signo com o objeto.
Em resumo, Charles Sanders Peirce (1839-1914) foi um filósofo e estudioso norte-americano e um dos fundadores da semiótica. A semiótica, por sua vez, é a ciência que estuda o significado através dos signos, que podem ser qualquer coisa. Peirce divide essa variedade em “ícone, índice e símbolo”, mas não irei me aprofundar tanto nessas especificações porque ainda é complexo demais para minha cabeça (um passo de cada vez, galera). Por isso, focarei apenas na definição da tríade. Para tal, separei três obras: Tomorrow, Cinderela e Frozen.

TOMORROW
Tomorrow é uma série sul-coreana lançada em 2022, disponível na Netflix. O protagonista, Choi Joon-woong, sofre um acidente que o deixa meio vivo e meio espírito e recebe uma proposta do mundo espiritual, de uma empresa de ceifadores, Jumadeung. Os ceifadores da empresa logicamente ceifam vidas, guiando o espírito da pessoa após sua morte, mas o protagonista conhece Goo Ryeon e Lim Ryeong-gu que, apesar de serem ceifadores, trabalham salvando a vida de pessoas com pensamentos autodestrutivos e tentativas de suicídio (esse é um dorama que eu recomendo, mas por retratar temas sensíveis, certas histórias podem ativar gatilhos).
A personagem Goo Ryeon tem 420 anos, tem cabelos curtos pintados de rosa e usa sombra vermelha (um vermelho que pende para o rosa). Eu não vou dar spoiler da história dela porque uma das grandes questões da série é o mistério da sua vida passada. Ela é uma mulher forte, luta pelo que acredita e sente empatia pelas pessoas que se afogam na depressão. As pessoas que não sentem mais amor pela vida são desprezadas pela maioria dos ceifadores, porém Goo Ryeon olha para elas com respeito e ternura. Basicamente, existe um laço que conecta espíritos com uma relação forte, se um lado comete suicídio essa ligação é cortada e os espíritos não se encontram mais em vida nas outras reencarnações. Goo Ryeon não quer que essas pessoas conheçam essa dor.

Ela é uma personagem que não sorri e nunca abaixa a guarda, mas o cabelo e a maquiagem suaves quebram essa rigidez, porque podem representar justamente essa dualidade de forças, ela foi uma vítima de uma realidade cruel que não deu espaço para a empatia e sensibilidade. Além disso, diante de um padrão de ceifadores que reprovam salvar vidas, ela se destaca tanto pela postura de contrariar o menosprezo a quem sofre, quanto pelos cabelos rosados e sombra vermelha em meio a personagens com roupas pretas. Goo Ryeon é alguém que irá bater de frente com quem não tem humanidade, e estender a mão para quem está na beira do abismo sem esperanças.
O cabelo rosa e sombra vermelha são os signos, o objeto é a própria Goo Ryeon como ceifadora salvando vidas, agora o interpretante é o arrependimento, a culpa, a sensibilidade e a empatia, ou seja, a humanidade que permanece nela.

CINDERELA (1950)
Cinderela é uma animação da Disney lançada em 1950. A protagonista é uma jovem que vive na casa de seu pai com sua madrasta, Madame Tremaine, e filhas da mesma faixa etária, Anastácia e Drizela. Com o falecimento do pai, a madrasta a fez de empregada pessoal e, junto das filhas, menospreza a garota sempre que tem oportunidade. Entretanto, Cinderela nunca deixou de ser gentil e sonhar. Ela apresenta uma paleta de cores frias durante toda a história, mas esses tons de azul remetem à serenidade, ao invés da frieza.
Após receberem uma carta convidando todas as jovens solteiras do reino para um baile no palácio, Cinderela se maravilha com a ideia de sair do seu cotidiano conturbado para uma noite de música e dança para se divertir. Como eu mencionei anteriormente, ela usa cores azuis, mas somente quando ela se arruma com um vestido restaurado pelos seus amigos é que ela veste o rosa. O vestido era de sua mãe, então Cinderela transparece alegria e esperança no seu semblante, afinal, ela iria ao baile (uma fofa e querida). Mas a madrasta e suas filhas destroem essa esperança arrancando o colar azul turquesa de seu pescoço, além de rasgaram o traje rosa. Pura inveja, hein.

Como o rosa “foge” da paleta da personagem, essa cor pode simbolizar a fuga da realidade em que ela se encontrava, ela sentiu o vislumbre da liberdade de poder escolher o que queria fazer. O rosa normalmente significa a ingenuidade, assim como Cinderela ingenuamente pensou que aquele momento seria diferente. Esse único momento em que ela usa rosa, também é o único momento no qual ela teve a oportunidade de realizar seu sonho, coisa que de fato aconteceu com a ajuda de sua fada madrinha, que transformou seu vestido rosado destruído em um vestido de baile prateado cintilante, além dos icônicos sapatinhos de vidro, claro.
O signo é o vestido rosa, o objeto é a Cinderela, enquanto o interpretante é a idealização de uma nova perspectiva de mundo, um momento de otimismo e sensibilidade.

FROZEN
Frozen é um filme em animação lançado em 2013 pela Disney. No reino de Arendelle há duas princesas, Anna, a mais nova, e Elsa, a mais velha. Elsa nasceu com poderes de gelo e, durante uma brincadeira, atingiu sua própria irmã na cabeça por acidente, gerando em si um trauma que a isolou do resto do mundo, até mesmo de Anna, até que aprendesse a controlar seus poderes, segundo seu pai.
Seus pais, anos depois, Agnarr e Iduna falecem em um acidente durante uma viagem. Após 3 anos do acontecimento, agora aos 21 anos, Elsa era a herdeira do trono e se prepara para a coroação. No seu traje de rainha, ela usa as cores características de Arendelle: azul esverdeado e rosa frio. No entanto, Elsa sempre aparecia usando cores azuis, no máximo alternando para cores análogas a ele, mas não o rosa. Sua irmã, Anna, sempre utiliza roupas verdes e amareladas, mas também não a vemos usando o rosa como cor principal.
Após o desentendimento entre irmãs, Elsa foge com medo, pois havia revelado seu maior segredo, deixando seu reino para trás, incluindo Anna. A música “Livre Estou” (Let It Go) é muito significativa, é nesse momento que Elsa está sozinha de novo, mas dessa vez, pode usar seus poderes sem se esconder. Abandonando sua luva, ela tira a longa capa rosa e segue arremessando a coroa, transformando o vestido de coroação em um vestido de gelo azul e capa transparente e brilhante de mesma cor. Ela estava sendo quem realmente era, e não uma personagem, minha diva de infância ela.
Agora, depois de Elsa abandonar a longa capa rosa, quem veste outra é a Anna, que está indo atrás de sua irmã, para conversar e fazê-la trazer o verão de volta. O curioso é a paleta de cores usada por Anna agora, que passa a usar tons azuis característicos de Elsa, tanto visualmente quanto internamente; o foco de Anna era Elsa. Por conta da própria rainha, diante da pressão e desespero, ter trazido o inverno eterno para o reino e fugido (não julgo, faria o mesmo, inclusive), a responsabilidade de resolver a situação recai sobre Anna. Portanto, a capa rosa pode representar assumir uma responsabilidade de maneira brusca - em outras palavras, ser a líder e salvadora de Arendelle. Quando as duas vestiam essa capa, elas estavam em conflito interno e precisavam ter o controle da situação, mesmo com medo.

Então, o signo é a capa rosa, o objeto é o reino, e o interpretante é a insegurança e incerteza de ser capaz de cumprir com o seu dever.
A cor rosa geralmente é usada para trazer a sensação de sensibilidade e leveza. As três obras analisadas têm contextos e personagens diferentes, mas a cor foi usada em momentos cuja fragilidade das personagens foi colocada em evidência, o que não é necessariamente algo negativo, afinal, foi através da incerteza que as personagens tiveram a oportunidade de amadurecer e se conhecerem. Seguindo esse pensamento, digo que essa cor foi a ponte de conexão para que Goo Ryeon, Cinderela, Anna e Elsa encarassem um desafio e fossem capazes de romper a barreira colocada na vida delas. À primeira vista, o rosa pode retratar a fragilidade como uma coisa ruim, mas é por meio da fragilidade que elas encontram sua força e desafiaram o que foi imposto sobre elas, o rosa agiu como um certo tipo de armadura. Então, você já colocou sua armadura rosa para lutar contra os conflitos da vida hoje?
Hora dos links!
Vídeo do Gaveta:
Trailer de Tomorrow:
Vídeo curto sobre a Cinderela:
Cena da Anna indo conversar com Elsa: